Narrado por Khaled
O mundo dormia.
Era o que me dava vantagem.
Gente que dorme não vê o que acontece nas sombras, e eu... eu sempre preferi viver nelas. Era antes do sol nascer que as verdades mais cruas vinham à tona. Quando o silêncio da madrugada engolia a cidade e tudo que se ouvia eram os próprios pensamentos — aqueles que nem mesmo o mais valente é capaz de encarar durante o dia.
Sentei-me no salão menor da ala leste da mansão, a que uso para reuniões que não podem ser documentadas. Lara dormia no andar de cima, exausta da noite que tivemos. A leveza no rosto dela enquanto sonhava era o único motivo pelo qual eu ainda me controlava. Ainda não havia sangue. Ainda.
Mas estava cada vez mais perto.
A campainha discreta da porta interna soou. Youssef.
Cinco horas em ponto. Como sempre.
— Entra. — falei sem me virar.
Ele cruzou a sala com passos firmes e fechou a porta atrás de si. Não falamos por um momento. Peguei um dos charutos cubanos que deixo só para as madrugadas tensas. Acendi. Traguei devagar.
— Sabe quem está ativo de novo na fronteira sul? — perguntei, encarando o fogo da lareira. — Bashir.
— O... negociador? O traficante?
Assenti com um leve movimento da cabeça.
— Ele está fazendo novas aquisições. E pagando bem.
Youssef hesitou.
— Quer que eu cuide dele?
— Não. Quero que você marque uma reunião.
Ele se calou. Eu podia sentir o desconforto irradiando dos olhos dele mesmo sem encará-lo.
— Senhor... pra quê, exatamente?
Virei o rosto devagar, cruzei as pernas e o encarei.
— Talvez seja hora de vender algumas pedras no meu sapato.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Ranya?
— Ranya, sim. Mas não só ela. As irmãs da Lara também. Natália e Bianca.
A expressão dele endureceu como pedra.
— O senhor teria coragem de fazer isso?
— Acha mesmo que eu hesitaria?

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