Narrado por Lara
Se tem uma coisa que aprendi vivendo ao lado de Khaled é que, às vezes, o silêncio fala mais do que qualquer discurso.
E naquela noite, tudo estava silencioso demais.
Era para ser um jantar menor — pelo menos foi o que Khaled disse. “Uma reunião com aliados da família”, ele me contou. “Apenas alguns rostos antigos.”
Mas ao chegarmos, entendi que aquilo era qualquer coisa, menos íntimo.
O salão era menor que o da noite da apresentação, mas não menos imponente. O brilho era mais discreto, mas os olhares eram ainda mais afiados. Mulheres cobertas por véus de seda nos observavam com olhos pintados de kohl escuro. Homens em túnicas tradicionais conversavam em árabe baixo, intercalando com palavras em inglês.
E eu?
Mais uma vez, vestida para o papel.
A esposa do Sheik.
A prometida do herdeiro que ainda não existia.
Fiquei ao lado dele o tempo todo. A mão dele em minha cintura, como uma corrente invisível. Sorri quando ele mandava. Abaixei o olhar quando sentia que devia. Reagi exatamente como esperavam de mim.
Até que ela apareceu.
Foi no meio do segundo brinde.
Khaled se afastou por alguns minutos para conversar com o ministro de finanças de Omã, e eu fiquei sozinha ao lado da mesa, segurando uma taça de vinho — que eu nem queria beber.
A mulher surgiu do nada.
Alta.
Elegante.
Vestido preto até os pés.
Olhos escuros delineados com precisão cruel.
Sorriu. Mas o sorriso não chegou aos olhos.
— Você é linda. — disse, com um sotaque leve. — O tipo de beleza que chama atenção pelas razões erradas.
Eu franzi o cenho, confusa.
— Me desculpe?
Ela se inclinou um pouco, como se fosse me cumprimentar. Mas no lugar de beijos no rosto, sussurrou:
— Fuja enquanto pode.
O coração gelou. As palavras entraram como agulhas na pele.
— O que você disse?
Ela sorriu de novo. Mas dessa vez, os olhos estavam cheios de dor.
— Você vai entender. Quando for tarde demais.
E antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, ela se afastou, sumindo entre os convidados como se nunca tivesse estado ali.
Olhei em volta, nervosa. Queria encontrá-la de novo, perguntar quem era, o que sabia, por que me disse aquilo. Mas ela já não estava mais lá. Nem uma sombra.
Khaled voltou minutos depois, sorridente, com as mãos nos bolsos e o olhar controlado.
— Está tudo bem?
— Sim. — menti.
— Você parece pálida.
— Só estou cansada.
— Vamos embora?
Assenti. E fomos.
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No carro, fiquei em silêncio o tempo todo.
A voz da mulher martelava na minha mente.
“Fuja enquanto pode.”
Ele continuou me encarando, esperando mais.
— E que eu devia fugir. Antes que fosse tarde demais.
Por um segundo, só um, o rosto dele perdeu a expressão. Depois, o sorriso retornou. Frio.
— As pessoas têm inveja, Lara. Especialmente as mulheres que achavam que um dia teriam meu sobrenome. Não dê ouvidos.
— Você sabe quem era?
— Não. Mas se eu soubesse, ela já estaria fora do país.
Engoli em seco.
— Por quê?
Ele se aproximou. Lento. Sem pressa.
— Porque ninguém planta medo em você.
Exceto eu.
Colocou a mão no meu rosto, acariciando minha bochecha.
— E eu só planto medo… quando você merece.
Sorriu. Me beijou na testa.
Depois, saiu para o banho.
E eu fiquei ali.
Parada.
Sabendo que a dúvida agora era minha única amiga.
E que, talvez, aquela mulher tivesse razão.
Talvez eu ainda tivesse tempo.
Talvez.

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