Rafaela
Acordei com uma leve dor de cabeça no quarto silencioso do hospital. O ar-condicionado mantinha a temperatura baixa demais, e o cheiro de antisséptico era forte. Uma médica estava ao meu lado, ajustando o soro preso ao meu braço. Ela me observava com atenção, séria, profissional.
— Vou chamar sua mãe — disse, em tom calmo.
Assenti com a cabeça. Eu não tinha forças para falar.
Alguns minutos depois, a porta se abriu e Miriã entrou. Seu rosto estava fechado, mas não havia raiva ali. Havia preocupação. Ela se aproximou devagar e se sentou na cadeira ao meu lado, apoiando a bolsa no colo.
Ficamos alguns segundos em silêncio, nos encarando.
Miriã:
— Precisamos conversar. É um assunto sério.
Meu coração acelerou.
Rafaela:
— O que aconteceu?
Ela respirou fundo antes de responder.
Miriã:
— Você está grávida daquele homem.
O mundo pareceu parar.
Rafaela:
— O quê…?
Miriã:
— Rafaela, eu te avisei. Mais de uma vez.
— Mas não vou repetir discursos agora. Essa criança é o menor dos seus prejuízos.
Ela segurou minha mão com firmeza.
Miriã:
— Você poderia estar morta neste momento se a esposa dele fosse uma mulher desequilibrada. Você se envolveu com um homem poderoso, casado, cercado de influência. Isso não é brincadeira.
Engoli em seco.
Miriã:
— O que mais me dói é ver a história se repetir.
— Eu lutei muito para te criar sozinha. Seu pai foi embora quando soube da gravidez. Não quis assumir nada.
— Eu precisei sair da minha casa, recomeçar em outro país, trabalhar até a exaustão. Eu não tinha apoio, não tinha rede, não tinha tempo para sonhar.
Minha visão ficou turva.
Miriã:
— Eu pensei que sua história seria diferente. Você estudou, trabalhou, se esforçou. Eu acreditei que você teria escolhas melhores do que as minhas.
Ela respirou fundo, contendo o choro.
Miriã:
— Não estou dizendo que sua vida acabou. Mas agora você precisa tomar uma posição.
— Ser mãe solteira não é heroísmo. É sobrevivência.
— As pessoas me chamam de forte, mas ninguém viu as noites em que eu precisei escolher entre comer ou garantir que você tivesse leite.
As lágrimas começaram a cair.
Miriã:
— Eu juro por Deus, Rafaela…
— Se você voltar para aquele homem, eu nunca mais olho para você.
— Agora que a esposa dele o deixou, ele vai tentar te usar como apoio, como refúgio emocional. Mas você não é abrigo de ninguém.
Ela tocou meu rosto com carinho.
Miriã:
— Se ele quisesse, teria assumido você antes.
— Você não é alguém para viver de restos deixados por outra mulher.
— Eu criei uma mulher. Não criei alguém para ser usada, descartada ou humilhada.
Eu chorava em silêncio.
Miriã:
— Agora isso não é mais só sobre você.
— É sobre a vida que cresce dentro de você.
— E tudo o que vem junto com ela.
Ela me abraçou forte.
Miriã:
— Vai ficar tudo bem. Eu estou aqui.
E, pela primeira vez desde que acordei, eu acreditei.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Vendida ao Sheik