Renata
Acordei antes do despertador. Na verdade, nem consegui dormir direito. O primeiro dia na universidade… só de pensar meu estômago dava um nó. Fiquei alguns segundos olhando para o teto do quarto que a madrinha arrumou para mim e respirei fundo. Parecia que a vida tinha finalmente começado a se mover outra vez.
Levantei devagar, tentei não fazer barulho e fui até o banheiro. A água fria no rosto me despertou na hora. Olhei meu reflexo no espelho: olhos ansiosos, cabelo preso às pressas e aquele medo escondido no fundo, o medo de não dar conta.
Mesmo assim, um sorriso pequeno apareceu.
— Vai dar certo sussurrei para mim mesma.
Vesti a calça jeans mais confortável que eu tinha, uma blusa clara e o moletom que eu adorava. Depois coloquei o tênis novo presente da madrinha e ajeitei os cadernos dentro da mochila como se isso me desse mais coragem.
Quando saí para a cozinha, a madrinha já estava acordada, mexendo no fogão.
— Bom dia, minha filha. Não ia deixar você sair sem comer disse, virando-se com uma xícara de café quente na mão. Hoje é dia importante.
Sentei, comi as torradas que ela fez e tentei não parecer tão nervosa.
— Madrinha… e se eu não me adaptar? Se for difícil demais?
Ela colocou a mão no meu ombro.
— Renata, você nasceu pra isso. Eu sei. Sua mãe sabia. A universidade só vai te ajudar a mostrar pro mundo o que você já é.
Eu respirei fundo. Aquele tipo de frase que parece um abraço.
Terminei o café, peguei a mochila e fui até ela para um abraço apertado.
— Obrigada por tudo.
— Vai, minha filha. E anda ligeiro, que o ônibus não espera ninguém.
Sorri e saí.
O ar da manhã de Lavras estava frio e úmido, típico dos dias nublados. A cidade começava a acordar: o barulho de portões abrindo, o cheiro de pão fresco vindo da padaria da esquina e um cachorro latindo preguiçoso para algum movimento invisível.
Ajeitei a mochila nas costas e segui até a parada de ônibus. Cada passo parecia parte de um caminho maior, um caminho que eu sempre quis, mas nunca imaginei que realmente alcançaria.
A parada ficava a duas quadras da lanchonete. Quando cheguei, já havia duas pessoas esperando: uma senhora com sacolas de feira e um rapaz com o uniforme azul de uma loja do centro. Eles me cumprimentaram com um aceno de cabeça, aquele tipo de educação simples que só cidade pequena tem.
Eu me sentei no banco e abracei a mochila no colo. Sentia o coração batendo forte, como se quisesse sair pela boca.
O ônibus demorou um pouco, e nesse intervalo eu fiquei observando as ruas, pensando na minha mãe, pensando em como ela ficaria orgulhosa. Pensei também na madrinha, no seu jeitinho de cuidar de mim, e senti uma vontade enorme de não decepcioná-la.
Quando o ônibus finalmente virou a esquina, soltando fumaça e fazendo aquele barulho típico de motor velho, eu me levantei.
Era isso.
Primeiro dia.
Primeiro passo.
Assim que as portas se abriram, inspirei fundo, subi o degrau e me preparei para a nova vida que estava começando.
O ônibus parou na frente da universidade e, assim que desci, senti o impacto daquele mundo que eu estava prestes a enfrentar. Os prédios modernos, o movimento constante e a sensação de que tudo ali era grande demais para mim… ou pelo menos para quem eu era agora.
Ajeitei a alça da minha mochila
Carros luxuosos estacionavam um após o outro perto da entrada principal. SUVs brilhantes, sedãs com bancos de couro, esportivos que pareciam mais caros do que tudo o que havia dentro da lanchonete da minha madrinha somado. Jovens desciam deles com mochilas de marca, roupas impecáveis, perfumes caros que pareciam anunciar sua presença antes mesmo de chegarem.
Eu caminhei em direção ao portão.
Ainda não fazia nem dois meses desde que minha vida tinha virado do avesso. Dois meses desde que eu descobri meu noivo na cama com a minha irmã. Dois meses desde que meu pai o homem que sempre teve tudo, absolutamente tudo olhou para mim e disse para eu não “complicar os negócios” com o fim do noivado.
Doía. Ainda doía.
Mas eu estava ali. Com roupa simples, cabelo preso do jeito que deu, tênis que não chamava atenção. Não porque eu nunca pudesse ter o que eles tinham… mas porque eu escolhi largar tudo.
E isso, aparentemente, chamava atenção.


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