POV: HENRY
Fiquei parado um longo tempo observando o carro se afastar, em completo silêncio. O som dos pneus na estrada parecia distante demais, abafado pela pressão no meu peito. Eu não conseguia me mover, não conseguia pensar em mais nada além da imagem dela indo embora. Lauren. Minha Lauren.
Minhas mãos estavam frias, mas mesmo assim passei os dedos pelos cabelos, tentando conter o caos dentro de mim. Deslizei os dedos para o bolso e toquei algo que me fez congelar por um instante. Puxei os sapatinhos de bebê rosa. Aqueles pequenos pedaços de tecido pareciam pesar uma tonelada em minha mão. Me sentei nos degraus da escadaria da mansão, encarando os sapatinhos como se fossem a única coisa que restava da família que quase tive.
Eu estava pronto para ser pai. Algo que nunca imaginei desejar, mas ela me transformou. Lauren chegou e bagunçou minhas certezas. Me fez enxergar um futuro que antes não existia, me fez amar com intensidade, sonhar com uma vida inteira ao lado dela. Com uma filha. Com o Theodor. Com a nossa família. E agora tudo isso escorria pelos meus dedos como areia.
O céu relampejou. O tempo começava a mudar, anunciando uma tempestade, como se o mundo refletisse o que eu sentia por dentro. Entrei na casa e o silêncio lá dentro era quase ensurdecedor. Parecia que tudo havia parado no tempo. Cada cômodo, cada parede, tudo estava vazio. Frio. Sem vida.
Subi as escadas em passos lentos, cansados. Passei pela porta do quarto de Theodor e percebi que ele não estava lá. O quarto de Lauren, que há pouco tempo ainda carregava o perfume suave dela, tinha a porta entreaberta. Me aproximei e encontrei Theo encolhido na cama dela, abraçado ao travesseiro, com o rosto escondido e o corpo tremendo.
O som abafado dos soluços dele apertou meu peito com mais força do que eu conseguia suportar. Esfreguei o rosto com a mão, sentindo a barba por fazer arranhar minha pele. Eu queria acreditar que tudo aquilo era apenas um pesadelo, mas não era. Era a realidade cruel. E tudo o que me restava agora era ele.
Sem dizer uma palavra, me deitei ao lado dele. Passei o braço ao redor de seu corpo pequeno e o puxei para mais perto, como se aquilo fosse o suficiente para protegê-lo de todo o sofrimento. Ele não resistiu. Apenas se deixou abraçar, ainda soluçando.
— Eu não entendo... — Theo sussurrou, com a voz embargada. — Por que você não pode aceitar a minha irmãzinha? É tão ruim assim... ela não ter o seu sangue?
— É mais complicado que isso, pequeno — Eu respondi, com a voz rouca, sentindo o peso esmagador no peito, como se cada palavra me tirasse o ar.
As dúvidas ainda me corroíam por dentro. E então? E se aquela criança fosse mesmo filha de Ethan? Ele nunca se importou com Lauren, muito menos com o que viria dela. Ele deixou isso claro mais de uma vez, jogou fora tudo o que poderia ter com ela como se não valesse nada. Mas ainda assim... a verdade era que ela mentiu. Me escondeu algo essencial. Me fez sonhar com um futuro sem contar a parte mais importante dele. Me transformou em um tolo. E isso, isso eu não conseguia engolir.
Theo se sentou de repente, com o olhar afiado de quem sente mais do que entende. Havia raiva em seus olhos, um tipo de fúria silenciosa que me desarmou completamente.
— Então descomplica! — ele disse, sem hesitar. — Eu vi os jornais. Eu sei que você traiu a fada. Então por que não pode perdoar ela também? Por que não pode lutar por ela, por nós? Você precisa lutar por essa família, tio Henry. Somos os Carters. A gente não desiste da família.

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