POV: HENRY
— Quando a Kate apareceu lá, já encontrou o caos instalado. A mãe estava cercada por seguranças armados, pressionada, ameaçada... meu tio estava pronto pra fazer dela um exemplo. Kate ficou apavorada. Tentou argumentar, defender, mas ninguém ali ia escutar alguém com um sobrenome sujo e dívida acumulada. — Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. — Ela só não foi arrastada junto porque, quando viu minha foto pendurada no escritório do meu tio, disse, sem piscar, que era minha namorada. Que estávamos juntos há meses. Tentou colar uma história convincente.
Me engasguei com a bebida no exato momento em que ele terminou a frase, tossindo e batendo no peito.
— Namorada?! — Eu repeti, limpando a garganta, incrédulo. — Eu deveria te dar os parabéns ou perguntar quando exatamente você resolveu viver essa ilusão?
— Nunca aconteceu. — Lucian respondeu apertando o copo com força, os nós dos dedos ficando brancos. — Mas eu não neguei. Só… deixei rolar. Respirei fundo e confirmei. Disse que era verdade. Não podia deixar ela sozinha naquela situação.
Me encostei na cadeira, encarando-o por longos segundos. E entendi. Tudo. Ele não estava tentando se justificar, ele estava tentando aliviar o peso que carregava. E mesmo assim, achava que era pouco.
— Lucian… — minha voz saiu mais baixa, mais firme. — Você não tem culpa do que fizeram comigo. Aquilo foi uma armadilha. James e Mia sabiam o que estavam fazendo. E você estava lidando com um tipo diferente de inferno. Quem garante que, se tivesse vindo, não teriam te drogado também? Te largado em uma rua qualquer ou… pior?
Ele ergueu os olhos, e o que vi ali não foi sarcasmo. Foi dor. Culpa. Raiva.
— Eu não estava lá. E não consigo tirar isso da cabeça. — Ele murmurou. — Você é meu amigo. Eu devia estar contigo. E em vez disso, estava fingindo ser namorado de uma mulher que mal conheço, só porque ela me olhou com os olhos implorando por ajuda. Eu deixei você na mão.
— Não foi por causa de uma mulher. — Eu corrigi, minha voz mais firme e carregada do que eu pretendia. Sorri de lado, quase com amargura, ao sentir seu olhar curioso sobre mim. — Foi por ela. A mulher. A única. Somos dois idiotas cabeça dura, Lucian... e sabemos disso. Mas temos orgulho demais. Ou medo demais. Talvez os dois.
Lucian soltou um riso abafado e ergueu o copo.
— Estamos ferrados. É isso. — Ele brindou comigo, como se aceitasse com resignação o caos em que nossas vidas haviam se tornado.
O gelo tilintou contra o vidro quando ele tomou mais um gole. O ambiente estava carregado, mas pela primeira vez, ríamos, da desgraça, da ironia, ou talvez para não chorar.
— Mas e agora? Você e Kate? — perguntei, mais curioso do que deveria.
— Ela me agradeceu — ele disse, girando o copo entre os dedos. — Com os olhos cheios de vergonha e raiva ao mesmo tempo. Disse que ia pagar cada centavo que a mãe dela roubou.
— E aí você fez o quê? Abriu uma linha de crédito emocional e se ofereceu como garantia? — Eu brinquei com sarcasmo, ainda que sentisse um leve nó no estômago.
Lucian deu um sorriso torto, como se lembrasse da cena com certo gosto.
— Eu a pedi em casamento. — ele deu de ombros como se fosse algo trivial. — Disse que assim ela quitava a dívida... e ganhava um idiota como bônus.
Soltei uma gargalhada seca, balançando a cabeça.
— Então agora essa é sua estratégia? — Eu provoquei. — Pagar as dívidas das pessoas casando-se com elas? Porque, se bem me lembro, você teve uma bela parcela de culpa quando Lauren e eu fomos parar naquele altar de mentira que virou a coisa mais real da minha vida.

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