POV: LAUREN
Minha cabeça era um turbilhão de vozes, e nenhuma delas me deixava respirar. A mágoa pulsava, como uma ferida aberta. A lembrança da matéria... Mia em seu colo, como se o passado dele ainda tivesse mais poder do que eu jamais teria. E a dor de lembrar daquela noite, da esperança que carregava no peito quando ia contar tudo. De como desejei, desesperadamente, que ele aceitasse ser pai da minha filha. De como sonhei com uma vida ao lado dele. Como esposa. Como uma família.
Senti os olhos marejarem. Tentei piscar devagar para conter as lágrimas, mas elas se acumulavam em silêncio, criando uma fina linha de brilho que me fazia sentir... pequena. Fraca. Inútil.
Parte de mim queria gritar. Implorar por perdão. Dizer que fui uma idiota, que sim, menti — mas só porque estava assustada, insegura, confusa. Queria que ele soubesse que tudo o que senti por ele foi verdadeiro. Tão intenso que me consumia até hoje.
Mas a outra parte... a parte ferida, me mandava calar. Me proteger. Porque no fundo, apesar de tudo, eu sabia: se Henry realmente me amasse, aceitaria minha filha como eu aceitei Theo.
E agora, eu não sabia mais viver sem aquele menino. Theo era meu também. Não por sangue, mas por tudo que ele representava. Pela forma como me chamava de "Fada". Pelo amor incondicional que me dava todos os dias, mesmo sem entender o caos que se escondia ao nosso redor.
Respirei fundo, sentindo o cheiro suave de infância vindo do cabelo de Theo, misturado ao perfume inconfundível de Henry, uma combinação que me desmontava completamente.
Eu queria tanto que ele ficasse.
Mas mais do que isso... queria que ele escolhesse ficar.
Me levantei devagar, sentindo as pernas um pouco trêmulas. Disse que ia preparar algo para a gente comer, embora nem soubesse por onde começar. Eu só precisava sair dali escapar da intensidade daquele momento que me deixava vulnerável demais.
Na cozinha, apoiei as mãos na bancada de mármore fria, tentando me firmar em alguma realidade que não fosse essa mistura caótica de saudade, medo e desejo. Inspirei fundo. O ar entrou cortando, como se meus pulmões já estivessem saturados de tudo o que eu estava tentando engolir.
O silêncio da casa era quase cruel. Tudo estava calmo demais por fora, enquanto por dentro, tudo em mim gritava.
E então, ouvi os passos. Não precisei virar para saber. O som era dele. A forma como caminhava, seguro, firme, decidido. E o cheiro... aquele perfume amadeirado com fundo quente, que sempre me fazia perder a razão. Ele chegou antes mesmo de me tocar. Como sempre.
— Está fugindo de mim, Lauren? — Henry perguntou às minhas costas.
Fechei os olhos. Sua voz era baixa, controlada, mas havia algo nela... algo que me atravessava. Uma lembrança viva do que éramos, do que eu ainda queria que fôssemos.
— Não estou fugindo... — Eu respondi baixo, com a voz embargada. — Só... precisava respirar um pouco.
Senti meu corpo estremecer. Eu sabia que ele estava perto. Podia ouvir a respiração dele. Sentir o calor. O peso da sua presença. Meu coração acelerou tanto que doía.
— Eu também. — ele disse com honestidade. Sua voz estava mais próxima. Agora ele estava ali, ao meu lado, encostado na bancada. — Quando você olha assim, com esses olhos marejados... fica impossível manter o controle.
Meu olhar se virou para ele, sem forças para fingir que não estava quebrada. Eu tremia. E odiava estar tão exposta.
— Henry... — Eu sussurrei, sentindo minha garganta apertar. — O que está fazendo?

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