POV: HENRY
Becker tentou se afastar, empurrando meus braços com um gesto brusco, mas automático. Antes que ela conseguisse dar o segundo passo, segurei seu pulso. A pele dela estava fria, trêmula.
— O que isso quer dizer, Lauren? — Eu perguntei baixo, mas firme. Eu sentia que havia algo não dito, algo que ela estava escondendo, e que só piorava a pressão no meu peito.
Ela hesitou por um instante, depois se virou devagar, os olhos marejados, a expressão exausta.
— Estou considerando mudar de cidade. — Becker disse, com a voz embargada, mas tentando soar racional. — Recomeçar, longe daqui. Henry… graças ao acordo que você assinou, eu consegui pagar todas as dívidas do meu pai. Sou grata por isso, de verdade. Mas... eu não aguento mais. Esse lugar me lembra tudo o que eu perdi. Me destruiu. Eu não consigo mais respirar aqui.
As palavras dela bateram fundo. Parte de mim entendeu. Mas a outra... reagiu sem pensar.
— Então vai fazer com o Theodor o mesmo que fez comigo? — Eu disparei, a voz mais alta do que deveria. Um riso curto e incrédulo escapou. — Você é inacreditável, Becker.
Ela paralisou. Seus olhos se arregalaram, feridos, como se eu tivesse acabado de desferir o golpe mais baixo possível.
— Eu jamais abandonaria o Theo! — Lauren gritou, levando as mãos às têmporas como se tentasse acalmar a própria mente. — Eu conversei com ele. Disse que viria a cada quinze dias buscá-lo, que estaríamos sempre juntos. Mas eu preciso respirar, preciso me organizar, preciso me levantar. E daqui a dois meses, a Alice vai nascer. Eu não quero trazer minha filha para esse caos, essa confusão emocional. Ela não merece isso.
— Claro. Sua filha. — Eu murmurei entre dentes, a voz carregada de mágoa e raiva mal contida. Senti os punhos se fecharem ao lado do corpo.
Ela piscou, os olhos se enchendo de lágrimas mais uma vez.
— Eu não te abandonei, Henry. — Ela sussurrou. — Você não conseguiu aceitar meu bebê. Eu entendo isso agora... e não te odeio por isso. Não te culpo por absolutamente nada. Se existe um culpado nessa história, sou eu.
— Becker... — Eu chamei, minha voz suavizada, mas ela recuou.
Cobriu a boca com a mão, tentando conter os soluços que já escapavam entre seus dedos. Deu um passo para trás, como se minha aproximação fosse mais um golpe do qual ela precisava se proteger.
— Henry, por favor... me escuta. — A voz de Lauren saiu baixa, embargada. Ela passou as mãos pelos olhos, visivelmente exausta, como se o simples ato de continuar em pé exigisse dela mais do que deveria. Respirou fundo, os ombros frágeis subindo e descendo em um esforço nítido para se recompor. — Quando me casei com Ethan, achei que estava apaixonada. Acreditei nisso de verdade. E quando tudo desmoronou... a traição, o fim, a solidão... foi como se o chão tivesse sumido debaixo de mim. Eu não conseguia pensar, não conseguia analisar nada. Só sobrevivia.
Fiquei em silêncio. Encostei no balcão atrás de mim, enfiando as mãos nos bolsos para conter o impulso de me aproximar. Inclinei a cabeça, atento a cada palavra. A respiração dela ainda vinha irregular, os olhos marejados, vermelhos. A dor estava ali, viva.
— Mas agora, olhando para trás, consigo ver com mais clareza. O que vivi naquele casamento... não era amor. Era a ilusão de uma garota que queria acreditar no conto de fadas. Eu achava que sabia o que era amar, mas eu não sabia. — Ela respirou fundo de novo, como se cada confissão pesasse no corpo. — Aí você apareceu. Do seu jeito arrogante, insuportável e... impossível de ignorar. Você invadiu minha vida, Henry. E, por mais que eu tentasse evitar, eu me apaixonei.
Meus dedos se fecharam dentro do bolso. Cada palavra dela cortava, porque vinha carregada de emoção, de sinceridade, de lembranças que eu mesmo tentava evitar.
— Me apaixonei pela sua forma de cuidar do Theodor, pela forma como me olhava, como me ouvia mesmo quando eu estava quebrada. Me apaixonei pela sua coragem, pela sua presença... — Ela parou por um momento, e seus olhos encontraram os meus. E o que vi ali, no fundo do olhar dela, foi real. Doía nela. Doía muito. — Com você, Henry, eu conheci o amor de verdade. O amor que machuca quando não pode ser vivido.
Minha mandíbula se contraiu. Tive que engolir em seco e me manter firme onde estava, porque tudo dentro de mim queria atravessar aquela cozinha, tomá-la nos braços e dizer que ela não precisava fugir, que nós ainda tínhamos jeito.
— Eu te amo tanto... — Ela continuou, a voz embargada, trêmula. — Mas eu te amo o suficiente para reconhecer que não mereço você.
Essas palavras me atingiram com força. Um aperto violento no peito, como se algo estivesse sendo arrancado.
— E eu amo os meus filhos... — A voz dela falhou, mas ela respirou e prosseguiu. — Amo os meus filhos o suficiente para saber que preciso ir, me organizar, me tornar uma mãe melhor do que fui como mulher... e como esposa.
Ela baixou os olhos, e eu vi a vergonha, a culpa, o desespero silencioso que ela tentava esconder.

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