POV: LAUREN
Henry arregalou os olhos assim que leu as primeiras palavras. Seus passos firmes ecoaram no chão de madeira enquanto ele se aproximava mais do bilhete. Eu vi seus dedos tremendo ligeiramente ao segurar o papel. O silêncio que se instalou por alguns segundos parecia gritar dentro da sala. Meu peito apertou. Era como se o chão estivesse cedendo sob os meus pés.
As palavras do Theodor perfuraram meu coração com uma dor surda e crescente.
“Tio e Fada, me desculpe, mas não quero ter uma família quebrada assim. Mamãe e papai brigavam muito quando eram vivos, eu achei que minha nova família seria rodeada de amor, respeito e brincadeiras, como foi no começo. Mas tudo quebrou depois que se separaram e eu não consigo fingir que sou forte e corajoso para ver vocês dois tão tristes. Não sei como proteger Alice disto também, não serei um bom irmão ou bom filho, não tenho seu sangue Fada e mesmo assim você me chama de filho, o tio Henry podia aprender um pouco com você. Ele é um cara legal e engraçado, dê uma chance dele conhecer a Alice como eu, vai a amar como eu já amo. Até lá, resolvi ir embora, não quero mais ouvir brigas, não quero mais ver vocês chorando e não quero ser o culpado por os forçar a ficarem juntos. Do superprotetor: Theodor.”
Minhas mãos começaram a suar. A cada frase, a voz do Theodor parecia ecoar em minha cabeça com aquela entonação infantil e sincera, doce, mas tão carregada de dor. Uma criança de sete anos não deveria entender o que é desistir. Não deveria carregar essa responsabilidade.
— Merda. — Henry rosnou, com a mandíbula tensa, puxando o celular com força. Sua postura rígida escondia o desespero que eu via nos olhos dele, tão escuros e intensos que pareciam prestes a explodir. — Lucian, preciso que venha na casa da Kate. Traga os cachorros... Theodor fugiu, precisamos encontrá-lo. Agora!
Ele não esperou resposta. Saiu andando de um lado para o outro, abrindo gavetas com agressividade, procurando algo, qualquer coisa. Eu corri até ele, meu corpo tremia. Peguei duas lanternas e entreguei uma em sua mão. Nossos dedos se tocaram por um segundo, e o calor da pele dele me fez lembrar, por um instante, de todos os momentos em que o toque dele me acalmava. Mas agora, só me atravessava.
A raiva crescia dentro de mim. Não dele. De mim. De nós. Da situação. Como deixamos chegar a esse ponto? Como deixamos uma criança tão amorosa se sentir responsável por consertar algo que nem nós conseguíamos?
Minha garganta apertou, e o ar começou a faltar. Meus olhos ardiam, mas eu forcei o choro para dentro. Eu precisava ser forte. Pelo menos agora.
Minha mãe apareceu na porta da sala, com o pijama amarrotado e expressão preocupada. Ela olhou de Henry para mim, tentando entender o caos que nos engolia.
— Lauren, que alvoroço todo é este? — Ela perguntou, a voz ainda rouca do sono, mas firme, como se já soubesse que algo estava errado.
— Theodor fugiu, ele não deve estar muito longe, mas precisamos encontrá-lo. — Minha voz saiu ofegante, e o som do meu próprio coração parecia mais alto que minhas palavras. — Estou com medo dele ter ido para a floresta. Está escuro, tem animais por lá, ele pode se machucar... e se ele...
Minhas mãos tremiam e meu peito ardia. O ar parecia preso na garganta, como se algo ali me impedisse de respirar com clareza. Eu não conseguia manter o controle da respiração, nem da ansiedade que me corroía por dentro.
Henry se aproximou rapidamente. Suas mãos firmes seguraram meus ombros e ele me virou com cuidado para encará-lo. Seu toque era quente, decidido, e mesmo que estivesse tentando manter a calma, havia uma tensão evidente no maxilar dele. Os olhos escuros me prenderam, intensos e graves.
— Becker — ele chamou com a voz mais firme, mas com um cuidado quase íntimo. — Theodor é esperto. Ele vai ficar bem. Nós vamos encontrá-lo, eu prometo.

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