POV: HENRY
Não vi Lauren pelo resto do dia. Preferi manter a distância, ou pelo menos era o que dizia a mim mesmo. A verdade era que precisava afastá-la. Eu estava me envolvendo demais.
O tempo passou sem que eu percebesse. Uma batida leve na porta me tirou dos pensamentos. A governanta entrou carregando uma bandeja de jantar, e Theodor veio logo atrás, segurando meus medicamentos, com uma expressão contrariada.
— Obrigado. — agradeci, pegando os remédios.
A governanta hesitou, torcendo as mãos como se quisesse dizer algo. Suspirei e inclinei a cabeça.
— O que foi?
— Me perdoe, Sr. Carter. Não costumo me intrometer, mas… — ela olhou rapidamente para Theo antes de voltar para mim, incerta.
Meu humor já não era dos melhores.
— Diga de uma vez. — resmunguei, tomando os comprimidos.
— Bem, a Sra. Becker passou o dia no quarto e me pediu para cuidar do pequeno Theo. — A governanta manteve o tom profissional, mas havia preocupação em sua voz. — Não é algo comum para ela. Sempre fez questão de cozinhar para ele, organizar sua rotina, colocá-lo para dormir.
Meu maxilar tensionou. Lauren se afastando assim não era normal. E eu sabia o motivo.
Apertei o punho discretamente.
— Ela está doente? — Eu perguntei, tentando manter minha expressão impassível.
— Não que eu saiba. Apenas… parecia abatida. — Explicou a governanta.
Theo se aproximou, segurando minha manga.
— Ela não quer falar comigo. — A voz de Theo era pequena, magoada.
Respirei fundo, sentindo uma irritação crescer dentro de mim. Eu não gostava de vê-la assim.
— Tio Henry, você brigou com a fada? — Theo perguntou, a voz baixa, mordendo as unhas. — Ela não quis o jantar especial que eu e Matilde fizemos.
Meus olhos se estreitaram.
— Ela não jantou? — Olhei para a governanta, que balançou a cabeça em negativa. — Becker fez alguma refeição hoje?
— Não, senhor. Como eu disse, ela passou o dia trancada no quarto. — Matilde recuou um pouco, abaixando a cabeça em respeito. — Bati na porta, mas não obtive resposta. Sei que o senhor deveria estar descansando, mas…
— Eu vou até lá. — respondi sem hesitar, me levantando. Theo continuava inquieto sobre a cama. — Você não vem?
— Não, tio Henry. Você é adulto, precisa consertar essa situação sozinho! — Ele cruzou semicerrou os olhos e inflou as bochechas. — A fada é boa demais para o seu mau-humor.
Soltei um longo suspiro, rindo secamente.
— E eu ainda sou o culpado. — Eu joguei a cabeça para trás, balançando levemente. — Você podia vir para convencê-la com sua fofura.
Theo me encarou sério.
— Tio, ela cuidou de você, cumpriu o nosso acordo. — Ele se levantou na cama e cruzou os braços, exatamente como eu costumava fazer quando estava irritado. Me segurei para não rir. — Então cumpra com o seu e cuide dela também.
Passei as mãos pelos cabelos, exalando um suspiro pesado.
— É, eu acho que mereci essa. — Eu respondi, saindo em direção ao quarto dela.
Parei diante da porta, hesitando. Desde quando eu hesitava?

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