Após concluírem o jantar em um silêncio que mais parecia um acordo implícito de evitar palavras desnecessárias, Vivienne recolhe a bandeja com movimentos firmes, cada gesto um esforço consciente para manter o controle sobre o caos que a consome por dentro. Na cozinha, enquanto coloca as louças na lava-louça, o barulho do vidro e da cerâmica soa distante, abafado pelos pensamentos que a cercam. Não importa o quanto tente desviar a mente, ele está lá, dominando cada espaço da sua consciência. Dominic não precisa dizer nada, nem sequer olhar diretamente para ela, sua simples presença é como um ímã que a atrai e a desafia a resistir e falhar.
Encostada à pia, Vivienne solta um suspiro que parece rasgar seu peito, como se cada partícula de ar carregasse o peso insuportável de suas emoções. O cansaço emocional começa a transbordar, inundando cada canto de sua mente com uma confusão que ela não sabe como ordenar. É uma mistura insuportável de frustração e desejo, um sentimento agridoce que a consome lentamente, deixando-a incapaz de definir onde termina o incômodo e começa o anseio.
— Não, não é possível. — Vivienne murmura, balançando a cabeça com determinação, como se o movimento pudesse apagar os pensamentos insistentes que a atormentam. Ela cruza os braços, apertando-os contra o corpo, numa tentativa quase instintiva de proteger-se de si mesma. — Você está apenas vulnerável com todos os acontecimentos recentes. — Completa, a voz soa firme, mas dentro dela a justificativa reverbera como uma mentira mal contada.
Ao retornar ao quarto, seus olhos encontram Dominic, que se levanta devagar. Cada movimento dele é estudado, hesitante, como se calculasse cada passo para não demonstrar fraqueza. Vivienne para no batente da porta, observando-o com atenção. Era estranho, horas atrás ele parecia recuperar-se surpreendentemente bem, mas agora o cansaço e a debilidade estavam claros. Algo estava errado, e isso despertava nela um misto de preocupação e irritação.
— Precisa de ajuda? — Pergunta, enquanto os braços permanecem cruzados, como se quisesse preservar uma distância emocional.
Dominic ergue o olhar na direção dela e, por um instante, Vivienne quase sente a barreira invisível que ele ergue ao redor de si. Sua expressão é indecifrável, mas o movimento breve de sua cabeça em negativa não combina com o peso evidente de seus passos, enquanto caminha lentamente para o banheiro.
Ela acompanha cada movimento, sua postura aparentemente relaxada, escondendo a tensão crescente que ele desperta nela. Quando a porta do banheiro se fecha atrás dele, Vivienne senta-se na poltrona, balançando os pés levemente, mas sem conseguir afastar os olhos da porta. O fato de que Dominic não pode mais trancar traz a ela uma sensação estranhamente conflituosa. Há alívio, sim, mas também uma pontada incômoda de invasão, como se esse detalhe evidenciasse algo sobre a fragilidade de Dominic que ele preferia esconder.
A cada segundo, Vivienne sente o silêncio crescer ao seu redor, preenchido apenas pelo som abafado de água e movimentos do outro lado da porta. Quando Dominic finalmente emerge, ela ergue os olhos imediatamente, e o breve sorriso que ele lhe oferece a desarma. Não é um sorriso aberto ou inocente, mas algo mais complexo, um gesto que carrega intenções que ele não verbaliza, como se soubesse exatamente o que provoca nela.
— Você irá dormir aqui, certo? — Dominic pergunta, mas sua voz não soa como uma dúvida. Há um tom de certeza disfarçada, de uma expectativa que quase desafia uma negativa. — Prometo que irei me comportar. — Continua, um sorriso malicioso nos lábios, enquanto leva os dedos à boca para beijá-los teatralmente, como se selasse um juramento. O gesto inesperado arranca dela uma risada.
— Boa noite, Dom. — Responde, a voz abafada contra o peito dele, enquanto seus olhos começam a se fechar, embalados pelo toque suave e pela segurança que encontra nos braços dele.
Na manhã seguinte, após uma noite surpreendentemente tranquila, Dominic desperta lentamente. O calor suave do corpo de Vivienne aninhado contra o seu é a primeira coisa que ele percebe. Ele abre os olhos, apenas o suficiente para vislumbrar a pequena ruiva em seus braços, o rosto relaxado em um sono profundo. Um sorriso involuntário surge em seus lábios, enquanto seus dedos acariciam de leve os cachos bagunçados que emolduram o rosto dela. Inalando o perfume delicado que parece sempre lhe trazer paz, ele abaixa o rosto e deposita um beijo suave em sua testa, como se temesse quebrar aquele momento.
Com cuidado, Dominic ajusta sua posição, tentando afastar-se sem a perturbar. No entanto, enquanto observa Vivienne dormir, algo dentro dele se agita. Ele franze a testa, a mente lutando contra um vazio desconcertante. Embora o conforto da presença dela seja inegável, um fragmento de inquietação começa a crescer. Ele não consegue lembrar o que exatamente aconteceu. A última imagem clara que sua memória oferece é a de mandá-la embora, um gesto impulsivo que agora parece incoerente diante do fato de ela estar ali, nos seus braços.
— O que aconteceu? — Pergunta para si, a voz carregada de confusão. Ele passa uma mão pelos cabelos, sua expressão endurecendo, enquanto tenta juntar os fragmentos dispersos das horas anteriores. É como se parte de sua memória tivesse sido arrancada, deixando apenas lacunas preenchidas por sensações vagas e desconexas.

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