Ponto de Vista de Mia
O café havia esfriado duas horas atrás. Peguei a xícara mesmo assim.
Camille estava sentada do outro lado da mesa de reuniões, o notebook aberto, os dedos pairando sobre o teclado. Esperando.
— O engenheiro estrutural confirmou o trabalho na fundação? — perguntei.
— Terça-feira. Ele estará no local às sete.
— E os alvarás?
— Protocolados ontem. Devem sair até sexta.
Assenti. Fiz uma anotação na planta baixa espalhada sobre a mesa.
As linhas embaçaram.
Só levemente. Como se alguém as tivesse borrado.
Piscei. Com força. Uma vez. Duas.
As linhas voltaram ao foco.
Minha mão se moveu pelo papel. O lápis parecia errado. Leve demais. Ou talvez minha mão estivesse pesada demais.
— Mia.
Erguei os olhos. O rosto de Camille tinha aquela borda suave ao redor. Aquele halo que aparece quando você fica tempo demais olhando para plantas baixas e os olhos esquecem como ver as coisas normais.
Piscei de novo. O halo desapareceu.
— O quê? — perguntei.
Ela me observava.
— Quantas horas você trabalhou ontem?
— Não sei. A quantidade normal.
— Mia, vi seu carro no estacionamento quando fui embora às onze da noite. E ainda estava lá quando cheguei às sete da manhã.
Olhei de volta para as plantas. Não respondi.
— Você está vendo duplo.
Minha cabeça se ergueu rápido.
— Não estou…
— Estou te observando há dez minutos. Você fica piscando. Com força. Como se tentasse limpar alguma coisa da visão.
Merda.
— Estou bem, Camille — disse eu.
As plantas me olhavam de volta. Linhas limpas. Medidas precisas. Cada parede no lugar certo. Cada janela posicionada para iluminação máxima.
Apaguei uma linha. Redesenhei meio centímetro para a esquerda.
— O empreiteiro de climatização precisa de uma resposta sobre os dutos — disse Camille. — Hoje.
— Diz para ele usar o sistema split. Mais caro, mas melhor circulação de ar.
Ela digitou.
— Feito. E a designer de interiores quer saber sobre os acabamentos. Está pedindo painéis de referência visual para segunda-feira.
— Terei prontos.
— Mia.
Erguei os olhos.
O rosto de Camille estava tenso.
— O quê?
— Nada. É só que… — Ela parou. Recomeçou. — Você tem trabalhado assim há duas semanas. Dezesseis horas por dia. Às vezes mais. Estou preocupada.
— Estou bem.
— Mia…
— Estou bem. — Olhei para ela. Encontrei os olhos dela. — Só quero que essa casa fique pronta no prazo.
Ela assentiu. Não pareceu convencida, mas não insistiu.
Os dedos voltaram ao teclado. Digitando algo. Provavelmente anotações sobre os empreiteiros.
A observei por um momento.
— Camille.
Ela ergueu os olhos.
— Quando esse projeto terminar — disse eu —, todo mundo tem duas semanas de folga. Remunerada.
Ela piscou.
— O quê?
— Duas semanas. Salário completo. Todo mundo no escritório. Incluindo você e eu.
— Mia, isso é… — Ela parou. — É muito dinheiro.
— Eu sei.
— Tem certeza?
— Sim. — Me recostei na cadeira. — Todo mundo tem trabalhado em horas insanas. Você. Os arquitetos júnior. Até os estagiários. Todos precisamos de uma pausa.
O rosto dela fez algo. Amoleceu.
— Obrigada.
— Não me agradeça ainda. Você ainda precisa mandar o e-mail.
Ela sorriu. De verdade. — Faço agora mesmo.

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