Lucila
O avião particular decolou cedo no dia seguinte. As crianças não paravam de falar sentadas em seus acentos, e até Olavo parecia ter sido contagiado pela tagarelice de Maya e Tay.
Um leve sorriso se formou no rosto de Lucila ao observar seu filho interagir com seus primos. Ele não lembrava mais o garotinho magro e frágil que apareceu em sua casa naquela noite tempestuosa. Havia ganhado peso, seu rostinho tinha um aspecto rosado e saudável, e os sorrisos se tornaram naturais, parte de seu cotidiano.
- Ele está cada dia melhor. – Vitório comentou, acompanhando o olhar dela.
Ícaro e Amélia também olharam para as crianças.
- Olha como ele está entusiasmado, é tão fofo. – Mel disse, se voltando para Lucila.
“Estou muito feliz em ver ele assim. Quando chegou, seu olhar era tão desconfiado e triste, mas por alguma razão, ele aceitou Vitório de imediato, mesmo que ele parecesse ameaçador para uma criança.”
A mão de seu marido repousava tranquilamente sobre a coxa cruzada de Lucila, e ao ouvir seu comentário, a apertou ligeiramente. Ela vestia uma bermuda de alfaiataria verde militar, e uma blusa de seda creme com uma leve transparência que evidenciava um biquíni claro com finas correntes douradas trançadas no busto, chamando a atenção para aquela região em específico.
A escolha da roupa foi muito ousada, e ela se perguntou diversas vezes se não deveria se trocar. A bermuda era bem mais curta do que costumava usar e o biquíni era totalmente diferente de seu estilo mais comedido e comportado.
Entretanto, desde que Vitório a viu, era como se não conseguisse manter suas mãos longe dela, e isso a deixou totalmente envaidecida e segurada de sua escolha de look.
- Não sou tão ameaçador assim. – Vitório respondeu, com um sorriso malicioso. – Se fosse, você fugiria de mim. O coelho sempre corre do lobo.
Ícaro se voltou para eles, analisando o diálogo de duplo sentido, realmente curioso.
- Virou a presa do lobo mau, Lucy? – Amélia sacou a brincadeira nada inocente imediatamente.
“Não me importo em ser pega uma vez ou outra.” – ela respondeu, surpreendendo Amélia. “Mas acho que um ser o predador também pode ser interessante.”
- Ohooooo! Isso, garota! – Mel bateu palminhas empolgadas, enquanto trocava olhares com Lucy.
- Agora estou ansioso para te ver...me caçando. – Vitório provocou com um sorriso safado, no canto da boca.
De óculos escuros, não era possível ver seus olhos, mas ela sabia que ele tinha aquela chama de luxúria queimando em suas íris intensas.
- Lucy... – Ícaro de repente chamou. – Onde o Vitório te levou? – ele perguntou seriamente.
O sorriso desapareceu imediatamente do rosto de seu marido, ela sentiu seu corpo grande enrijecer ligeiramente ao seu lado. Amélia olhou para Ícaro com uma expressão de descrença.
O que aconteceu de repente?
“Me levou...Como assim, Ícaro? Do que você está falando?”
Ao fechar a porta atrás de si, ele se afastou dela imediatamente. Andando de um lado para o outro, parecia furioso e irritado com o que aconteceu. Vitório vestia uma camisa de linho cru e que marcava levemente seus músculos conforme ele se movia.
As perguntas começaram a girar em sua mente.
Não era natural que ele se incomodasse tanto com uma pergunta que não tivesse sentido, como aquela. Então, obviamente, Ícaro e Amélia sabiam de algo que ninguém disse a ela.
Com passos incertos, ela se aproximou, segurando sua mão. Ela olhou para o toque que criava, a dela praticamente desaparecia dentro da dele.
- Sei que tem perguntas, mas esse não é o momento, Lucila. – ele respondeu um pouco mais brando.
“O que eles sabem, que eu não sei, Vitório?” ela insistiu na pergunta.
Inesperadamente, ele a pressionou fortemente contra o compartimento de bagagens. Seu olhar feroz fez Lucila estremecer e se arrepiar ao mesmo tempo. Segurando os pulsos dela para trás, Vitório cerrou o maxilar anguloso.
- Eu disse que agora não é o momento. – ele a pressionou mais forte. – Tudo o que tem que saber, é que nada do que foi mencionado pertence ao nosso presente. E jamais faria nada que poderia te ferir intencionalmente.
Lucila queria perguntar o que isso queria dizer, porque aquela afirmação tão cheia de peso e profundidade, não tinha sentido. Vitório sempre a tratou até com exagerada proteção, ela não tinha motivos para sequer imaginar que ele poderia ferí-la.
A determinação mesclada à raiva brilhava perigosamente em seus olhos, e quando ela pensou em desafiá-lo, ele a beijou. Não com o carinho e a paixão com que sempre a tomava. Foi com puro domínio e exigência, a língua dele a subjugou quase que imediatamente, e a sensação de ser dominada era.... deliciosa demais para ser combatida.

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