Lucila
Na estrada a cerca de uma hora e meia, eles seguiram a caminhonete preta de tração em que estavam Amélia, Ícaro e as crianças.
Quando ele virou em um retorno quase escondido entre frondosas árvores, uma placa majestosa como um monumento de entrada surgiu, ao viraram em uma curva acentuada à esquerda. “Fazenda El Dourado”
- A partir daqui, tudo pertence às nossas terras. – Vitório disse, com um sorriso agradável, como se estivesse em seu elemento.
Ele parecia realmente feliz ali, seu perfil anguloso iluminado pelo sol do entardecer, era como se pertencesse a esse lugar. Lucila ficou impressionada com a perfeita sincronia de Vitório com aquele ambiente. Era como vê-lo em seu elemento.
“Falta muito para chegar?” ela perguntou, olhando para a estrada, onde a outra caminhonete simplesmente havia desaparecido na linha do horizonte.
- Acho que não. Faz muito tempo que vim aqui, não tenho certeza de quanto falta. Mas não se preocupe com o Olavo, eles vão chegar primeiro e quando a gente se aproximar da casa grande, com certeza o Ícaro vai ter montado o acampamento perto da varanda e vão estar assando espigas de milho na fogueira.
“Só pensei na possibilidade de nos perder. Eles seguiram sem a gente, e a Mel me disse que a área da fazenda é enorme.”
- É realmente uma propriedade grande, por isso temos áreas que até hoje não foi usada como pasto ou como abrigo para os cavalos selvagens. – Vitório buscou a mão dela, e a beijou suavemente. – Entretanto, você não tem o que temer, mesmo que haja vida selvagem em abundância, e vou te proteger em qualquer situação, princesa.
As palavras dele eram como uma forte magia acometendo sua mente e coração, e rapidamente seus temores foram desaparecendo, e restou só a magnitude daquele pôr do sol no para brisas, a música agradável falava de um amor profundo de uma boiadeira, e ela se imaginou cavalgando na garupa de Vitório com aquele mesmo pôr do sol como testemunho.
Vários quilômetros a frente, em uma bifurcação Vitório diminuiu a velocidade a ponto que ela pensou que ele iria parar, o leve franzir de suas grossas sobrancelhas encarando a placa que indicava a direção da casa grande, fez Lucila apertar os dedos na mão dele, para chamá-lo.
“Algo errado?”
Um breve silêncio, mas logo a caminhonete estava em movimento novamente, seguindo o caminho a direita que tinha a placa indicando a casa grande. Com um sorriso torto, ele se virou para ela.
- Não, nada. Pensei em ter ouvido algo bater nos pneus, mas acho que foram algumas pedras apenas. – Vitório segurou a mão dela sobre sua coxa musculosa. – Estou faminto, e você princesa?
Ela não conseguia explicar, mas aquela pergunta soou com um outro sentido dentro dela, talvez pelo timbre profundo que ele usou, ou porque ainda estava presa naquele lampejo em que ele perdeu um pouco daquela camada do verniz controlado, no avião.
Parecia que Vitório se referia a outra coisa, totalmente diferente de comida.
“Como assim? Estamos perdidos?” ela perguntou, se voltando para ele preocupada.
- Algum peão novato deve ter cometido um erro com placa na bifurcação, porque essa não é a casa grande, mas não estamos perdidos. – Vitório olhou para ela com uma expressão misteriosa, seus olhos cintilando em profundidade, fazendo Lucy engolir em seco. – Essa é El Corazón del Cielo. Uma casa que meu pai construiu para minha mãe, como um presente de aniversário de casamento. Era o refúgio deles por muito tempo, quando ele a trazia para cá, ele se desligava de tudo, só para ficar com ela.
A boca dela se abriu e fechou, embasbacada em saber que estavam indo para o lugar que era a maior prova de amor de Otávio para sua falecida esposa, a mãe de Vitório.
Ela ouviu seu sogro falando daquele lugar com tanto pesar depois que ela morreu, mas nunca imaginou que de fato conheceria El Corazón del Cielo.
- Estou feliz em te trazer aqui. É um lugar que tem grande significado para mim, e não poderia compartilhar com mais ninguém além de você, minha coelhinha.
O jeito com que ele disse aquelas palavras, atingiu em cheio o seu coração, o carinho e a intimidade que só poderia ser compartilhada com ela. Naquele momento ela se sentiu a única mulher, a única pessoa especial, que poderia representar algo para Vitório.
E esse pensamento, fez suas determinações, seus sentimentos e desejos dispararem em anseio e necessidade.

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