Vitório
“Tem algo muito errado nessa história.”
A frase piscava em neon dentro da cabeça de Vitório, queimando em sua mente como um alerta impossível de ignorar.
A expressão de Lucila falava por si. O brilho bonito que fazia seus olhos parecerem uma joia preciosa, aquele reflexo de vida que tanto o encantava, desapareceu completamente no instante em que mencionou Felipe.
Por um momento, ele quis acreditar que era apenas pela dor da perda, pelo trauma de ter testemunhado a morte do irmão. Mas aquele instinto…
Aquele que sempre estava certo, aquela voz silenciosa que murmurava como um farol no nevoeiro, dizia de forma insistente que havia algo além. Algo oculto, mais sombrio, que ele nunca havia percebido em todos esses anos conhecendo a história da família Drumond.
Lucila não falava de Felipe com ternura ou saudade.
Esse detalhe, tão pequeno e ao mesmo tempo tão gritante, se transformava no ponto principal da trama que se descortinava diante dele. Por que ela não se sentia assim por alguém que amava? A morte de Felipe causou um trauma que mudou a vida de sua esposa; então… o que estava escapando aos olhos dele?
Ela hesitava em responder. Subitamente seu corpo ficou gélido e ela se encolheu como se o ar tivesse perdido todo o calor. Vitório a abraçou, puxando um cobertor macio que havia trazido para ela, e a envolveu no tecido grosso na esperança de aquecê-la novamente, e a proteger de tudo. Lucila praticamente desapareceu em seu abraço, se encolhendo cada vez mais, como se quisesse se esconder de algo invisível.
- Princesa... – chamou, com a voz mais suave que conseguiu compor. – Às vezes, a melhor forma de exorcizar nossos demônios, é externando nossos medos... – afagando os seus cabelos, ele continuou. – Nada pode te fazer mal aqui, comigo. Eu nunca vou deixar que te machuquem, minha doce Lucila.
A ouviu fungar em seu peito, e suas mãos geladas, que estavam cerradas, lentamente começaram a se abrir, até ficarem espalmadas no peito dele, sentindo a vibração de seu coração batendo. Era como se ela precisasse sentir aquele som, para ter alguma paz.
- Converse comigo.... – chamou, segurando seu rosto pálido como um papel. – Há muito que precisamos falar um com o outro... eu quero saber de tudo para poder te proteger até do que você não sabe que precisa de proteção.
Lucila piscou, era nítido o seu esforço e o bloqueio enorme que a menção de Felipe representava, deixando aquele alerta cada vez mais crescente dentro de Vitório.
Quando ela levantou as mãos se preparando para gesticular, Vitório nem mesmo percebeu que prendeu o ar, sua atenção estava totalmente concentrada nela.
“Eu não sei se consigo... – ela começou. Vitório beijou suas mãos delicadas.


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