Lucila
Por mais que ela tentasse sair, era impossível.
O freezer na despensa da suntuosa mansão em que os Drumond viviam, estava fechado. No início, seus dedos tentaram, em vão, empurrar a tampa pesada, mas o som abafado da voz de Felipe, carregada de ódio e desprezo, a paralisava tanto quanto a temperatura.
- SUA IMUNDA! EU VOU TE MATAR! – ele gritou, enquanto Lucila choramingava, tremendo de frio.
O calor foi deixando o seu corpo, e ela parou de tentar entender o que tinha feito de errado para que seu irmão, e começou a bater o queixo violentamente, se encolhendo em uma pequena bola, no fundo congelado do freezer.
Estava naquela casa há dois dias apenas, e já morreria assim... sem o sorriso e o abraço da mulher bonita que diz que seria sua mãe, e do carinho tranquilo do homem de olhos gentis que disse que seria seu pai...
No instante em que o frio deixou de ser apenas desconforto e passou a ser uma dor cortante, como se milhares de pequenas lâminas invisíveis perfurassem sua pele frágil. O ar que respirava era pesado, metálico, e cada tragada queimava seus pulmões, como se o gelo também quisesse se instalar por dentro.
Os músculos começaram a enrijecer, e o calor de seu corpo a abandonava rápido demais, como se estivesse escorrendo pela ponta dos dedos e dos pés. O tremor ficou mais forte, descontrolado, fazendo seus dentes baterem em um ritmo doloroso, ecoando dentro do crânio.
Ela se encolheu instintivamente, abraçando os joelhos contra o peito, tentando proteger o que restava de calor, mas até as lágrimas que desciam começaram a queimar de frio ao tocar sua pele.
A sensação era de que o tempo havia parado ali dentro, transformando aquele pequeno espaço num túmulo gelado, enquanto seu corpo infantil, tão leve e tão jovem, já se rendia à dormência, à exaustão… e à solidão apavorante de saber que morreria sozinha...
- LUCILAAAA!! – aquela voz, ela conhecia bem aquela voz.
Alguém muito importante para ela, gritava o seu nome com urgência. Lapsos de memórias ao lado de um rosto que constantemente estava ao seu lado, desde que se lembrava desfilaram como uma enorme tela. Sorriso encantador, um toque tão...tão quente....
Seus olhos transbordaram, as lágrimas varreram sua face.
O toque singelo de sua mão, em um simples afago, trazendo cor, calor e vida aos seus dias.
Aquele rosto pertencia a seu marido. Vitório.
Quando seus olhos se abriram lentamente, ela o buscou ansiosa, precisava dizer que estava bem, que ele não sofresse por ela. A pouca luz do quarto o iluminou, ansioso, falando em telefone robusto que não se parecia com o dele, sentado ao lado da cama. O toque de seus dedos seguravam os dela, a mantendo nessa realidade.
- Não... – ele dizia, com uma voz preocupada. - ...eu entendo doutor. Não pretendo cometer o mesmo erro de novo, eu...
Vitório estacou ao ver seus olhos se abrirem completamente.
- Ela acordou. Muito obrigado Doutor Spina.
Abandonando o aparelho de formato diferente, Vitório a abraçou forte, Lucila ouviu suspiros de alívio, e só então percebeu que não sabia por que ele estava tão preocupado.
Se lembrava de estarem conversando lá fora, frente a fogueira, a noite estava linda. Vitório estava finalmente se abrindo, falava de uma mulher que conheceu antes deles ficarem noivos. E depois.... nada.
“Sim, eu me lembro. Você estava me contando sobre uma mulher com quem se envolveu em uma relação caótica.”
Vitório ficou vários minutos perdido em pensamentos, ele parecia em conflito, mas quando ela estava prestes a perguntar o que estava acontecendo, ele sorriu. Mas aquele sorriso, era o mesmo que ele apresentava nas reuniões sociais que se obrigava a comparecer, um sorriso ensaiado e apresentado em diversas ocasiões, mas nunca para ela.
- Você deve estar com fome, vou prepara alguma coisa para você comer e depois podemos partir para a casa grande. – ele disse, enganchando uma mecha de seus cabelos negros atrás da orelha dela.
“Posso te ajudar na cozinha, o que acha?” perguntou animada, o abraçando, e beijando seu rosto barbado.
- Prefiro que fique na cama e descanse, minha pequena coelhinha. Não vou demorar.
Havia uma clara nota de preocupação. Mas por que? Ela perguntou. De repente, ele falava de voltar essa noite mesmo, e não queria nem que ela fizesse algo simples como ajudar a preparar uma refeição.
Lucila se levantou, e ficou de pé, o observando se levantar, vestido com um short e uma camiseta escura. Vitório tentou puxá-la pelo pulso, mas ela se soltou.
“O que está acontecendo, Vitório?” perguntou dando mais um passo para trás.
O clima entre eles mudou drasticamente, e só poderia atribuir essa súbita mudança ao que aconteceu quando ela apagou. Precisava saber o que mudou, não ia deixar que ele a tratasse novamente como uma mulher frágil como uma peça de cristal. Não ia suportar regredir dessa forma.
“E então? Não vai me dizer por que está me olhando com essa expressão de preocupação exagerada?”

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