POV
Vitório
Procurei as palavras certas para dizer a minha esposa o que aconteceu, mesmo sabendo que elas não existiam.
Os ecos dos seus gritos ainda estavam em mim, o desespero paralisante ainda me sufocava.
Quase saí em disparada com ela no meio da noite, o medo de perdê-la me descontrolou completamente.
Tive a sorte de pensar em fio de racionalidade, e no momento em que consegui falar com alguém que entendia o que caralhos estava acontecendo com a minha mulher, eu soube que tinha tomado a decisão certa em não sair correndo feito um louco, com ela instável daquele jeito no banco do passageiro.
Segundo o médico especialista em neuropsicologia que consegui contatar através de Ticiano, naquele momento desesperador, falar sobre o assunto que desencadeou um transe psicótico, deveria ser evitado, ou poderia gerar um outro episódio semelhante. Não poderia aumentar a cota, ela veria como uma quebra da confiança, e poderia se afastar concluindo que estava sendo enganada.
Mas diante daqueles lindos olhos azuis magoados, e daquela expressão que dizia que ela pensava que ele subitamente começou a agir diferente pela possível lembrança da mulher a qual mencionou.
Havia muitas lacunas entre eles, agora podia ver. Minutos atrás, acreditava que o seu passado e os fatos que ocultou pelo bem dela, era tudo o que havia entre eles. Mas agora sabia que as raízes ocultas do trauma de Lucila, era Felipe.
A relação de Lucila e Felipe aparentemente era terna e comum aos olhos de todos, inclusive para os pais deles. No entanto, com as reações que testemunhou e o fato de que Lucila realmente tinha a voz ligada a Felipe, ficou evidente que tudo era uma ilusão.
Felipe, que era um adolescente de treze anos quando Lucila foi adotada pelos Drumond, o garoto prodigioso sempre estava sob os holofotes, fosse pelo esporte, ou pelas artes, e até mesmo como o rosto de campanhas de grifes famosas. Ele tinha um futuro brilhante, segundo o meu pai dizia.
Era um gênio da matemática e da física, além disso tinha um carisma extraordinário. As pessoas gostavam dele de imediato, e confiavam naquele brilho jovial imediatamente.
Olhei para a figura belíssima como um anjo celestial bem à minha frente. Lucila sempre atraiu a atenção só por sua presença delicada e doce, todos queriam olhar para aquele anjo desenhado por Deus. “A chegada dela, fez o mundo parar de girar em torno dele.” Pensei, me levantando para segurar as mãos dela, que tremiam ligeiramente.
Havia muitas coisas a serem reveladas, de ambas as partes.
Lágrimas brilhantes como diamantes se formaram, deslizando por sua face delicada. A abracei forte, eu queria que ela sentisse a intensidade desse momento, de como eu também sentia essa necessidade de tê-la comigo, por inteiro.
Segurei seu corpo macio, que começava a esquentar mais e mais em meus braços, e o som de seus soluços sufocados, apunhalou meu peito.
- Quando perdeu a consciência, você gritou palavras que talvez façam parte das suas memórias. E mesmo que fosse algo angustiante de se ouvir, eu não consigo parar de pensar em possibilidades em que eu possa te ouvir de novo.
Visivelmente atormentada pelas minhas palavras, ela empalideceu imediatamente, e respondeu com gestos incertos.
“Por que está fazendo isso comigo...Sabe o quanto meus pais me fizeram perseguir essa ilusão.... Isso dói…isso dói demais. Por que?!” – ela balançava a cabeça em negativa, seu sofrimento expresso em cada microexpressão, em seus lábios trêmulos, na forma como suas pupilas suplicavam por alívio daquele fardo enorme que carregava a tanto tempo.
Segurei seu rosto molhando e beijando suas lágrimas quentes, finalmente disse o que estava ardendo em seu peito a tanto tempo.
- Porque EU TE AMO, Lucila. – disse seriamente, olhando com sinceridade dentro de suas imensas safiras brilhantes. – Eu te amo como um louco, desesperado para ter mais e mais de você! E sou um homem ganancioso, que deseja tudo da mulher a quem entreguei o meu coração e a minha alma.

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