Ícaro
- Você ficou ao meu lado no hospital, sem se importar com seus próprios ferimentos. – Ícaro começou. – Até quando vai carregar uma culpa que não te pertence, Vitório?
Desprezando a camiseta suja ao seu lado, Ícaro olhou para o seu irmão, que encarava a linha do horizonte com os olhos vermelhos. Sua expressão fria e distante era a maior prova de sua luta interna.
Conhecia Vitório. Sabia que nesse momento, ele estava travando uma terrível batalha. Os segredos e a culpa o consumiram por tempo demais, e agora ele não sabia mais como dividir aquele fardo. A reação de seu irmão diante de sua atitude, sobre aquele tiro nas costas, foi a prova do quanto Vitório vinha sofrendo todos esses anos.
Astrid não só destruiu a vida de Vitório, ela foi muito mais cruel que isso. Ela o isolou de toda a sua família, o tornando cego para essa situação. Tudo o que ela fez gerou uma culpa corrosiva e uma invalidação de seu irmão como parte da família Darius.
Era um plano perfeito para fazer Vitório se consumir, até ficar sem nada e nem ninguém.
Ela só não contava com a presença de Lucila, e de como Vitório se apaixonaria loucamente, mesmo sem querer, por aquela mulher.
- Se eu não tivesse me envolvido com aquela vadia louca... nada disso teria acontecido. – por fim, ele disse, ainda com aquela expressão ferrenha, perseguido por seus demônios. – Deveria tê-la matado quando ela apareceu no casamento com você.
- Você fez o que poderia fazer naquele momento. – Ícaro disse.
Se sentia culpado por deixar que o elo entre eles fosse se extinguindo pouco a pouco depois do que aconteceu na ascensão de Vitório à presidência da Acrópole. Pensando nisso, foi como se um estalo acontecesse em sua mente.
- O que aconteceu de verdade quando nós perdemos boa parte da Acrópole quando você se tornou presidente?
- O que pensa que aconteceu, irmão? – ele disse com um sorriso débil, deixando sua cabeça abaixar. – Eu fui enganado por aquela vadia desgraçada.
- Como? – Ícaro perguntou, tentando controlar a raiva. Aquela mulher tinha que pagar por tudo o que fez.
- Então, o menino veio até você sabendo quem você é?
- Sim. Ele sabe que sou o pai dele. – Vitório admitiu.
O barulho de algo se quebrando chamou a atenção de ambos. Ícaro e Vitório se entreolharam. Ícaro se levantou seguido pelo irmão, e entraram na primeira sala do galpão, observando avidamente o lugar. Não havia nenhum sinal de que uma pessoa esteve ali. Sacos de ração de gado, estavam empilhados em uma plataforma, e alguns palhetes ainda lacrados permaneciam intactos.
- Não tem ninguém aqui. Pode ter sido algum animal.
- De qualquer forma, está na hora de voltar para casa. Estou preocupado com a Lucila. Ela estava desgastada quando chegamos. Teremos a oportunidade de falar sobre isso depois. – Vitório respondeu, se dirigindo até a saída.
- A noite. Vamos conversar sobre como acabar com aquela vadia, a noite.

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