Vários minutos se passaram, em que conversaram sobre diversos cenários considerados por elas para que Astrid conseguisse engravidar de Vitório. Lucila estava tentando se manter firme nessa linha de pensamento de que não foi consensual, porque se houvesse a remota chance de Vitório ter tocado naquela mulher por livre e espontânea vontade, não haveria mais nada entre eles. O casamento pelo qual se esforçou tanto chegaria ao fim.
- Nenhuma das nossas considerações é o suficiente para ter certeza de nada. - Mel disse, se encostando na cabeceira da cama, ao lado dela.
A amiga que ela havia magoado horas antes, estava ali, disfarçando um bocejo, com olheiras profundas, e uma atitude ferrenha em sua defesa. Não devia ter acusado Mel dessa forma.... Ela tinha razão... Os segredos não eram dela para contar, sua relutância em fazê-lo só evidenciava a integridade de sua grande amiga.
“Preciso saber o que houve naquele quarto de hotel.” Lucila gesticulou, com um olhar firme. Algo dentro dela se formava com uma certeza rígida e inabalável.
Se Astrid esperava que trazer a existência de Olavo à tona os destruiria, era porque Vitório jamais cogitou a possibilidade de ser pai daquele menino até conhecê-lo. Isso era uma prova de que ele nunca fez nada com aquela mulher ordinária nos períodos aproximados da concepção da criança, que justificasse uma gravidez.
- Acho que conheço uma pessoa que pode nos ajudar no sigilo, se realmente for prosseguir com isso. Porque eu acho que precisa conversar com o seu marido. – Amélia disse pensativa. – E você precisa decidir o que vai fazer primeiro, antes de qualquer coisa. Se acredita que o Vitório nunca te traiu, o mais certo é conversar com ele sobre tudo isso.
Não discordava de sua cunhada, na verdade, quanto mais pensava nas coisas que ouviu naquela tarde, mais compreendia coisas que aconteceram no passado, coisas que justificavam atitudes de seu marido de uma forma perturbadora.
“Ele disse para o Ícaro que na noite em que ela fugiu, havia um atirador pronto para me matar, o homem estava me seguindo, só esperando as ordens dela.... – Lucila tinha um milhão de pensamentos nadando em sua mente, e tentando ignorar aquela dor insuportável, ela juntava as peças que estavam soltas, racionalizando esse emaranhado de mentiras e verdades. – Naquela ocasião ele foi coagido a segui-la e fazer o que ela queria.... Ele me protegeu, Mel...Não posso simplesmente condená-lo”
- Vitório te ama, Lucy. – Amélia se virou para ela, para demonstrar sua sinceridade. – Ele nunca deixaria ninguém te ferir.
“Acha que essa situação em que a minha vida estava em jogo, pode ter se repetido?”
- Tenho certeza que sim. O Vitório evitava ser visto com você, ele tentava se manter afastado o máximo possível, até mesmo saiu de casa. E isso só mudou, quando a Astrid fugiu do país após o Fernando desaparecer.
“Ela fugiu logo após o seu resgate, não foi?”
- Sim. Acho que você deveria falar com o Vitório, e tentar saber o que houve de verdade. Talvez não precise de nenhuma prova do que houve em Amsterdã, tudo o que você precisa é ouvir o seu marido.
Lucila fechou as mãos em punhos, segurando o fôlego por alguns segundos. Não era uma mulher maquiavélica e muito menos tinha o desejo de vingança que muitos acalentam, mas o que Astrid fez ia além dos limites, e ela não estava disposta a perder de novo para alguém que se considerava superior a ela. Não queria se vingar, queria justiça.
Se Vitório e Olavo a amavam, era com eles que ela ficaria e os protegeria com todo o seu ser. Vitório esteve lutando a vida toda sozinho, mas agora não mais. Essa mulher não iria destruir sua família.
- Vai falar com o Vitório? – Mel perguntou, num tom curioso. – Você parece com muita raiva, ainda acha que ele te traiu?
“Ele mentiu para mim, isso é incontestável. Mas enquanto não souber o lado dele da história, não tenho o direito de acusá-lo de nada. – Lucila ponderou sobre algo. – Essa mulher vai querer transformar o Vitório em monstro diante de todos, bater de frente com ela não deu certo com os Darius até agora. – ela olhou para Mel determinada. - Vou mudar a estratégia de lidar com essa vadia maldita. Tenho que enganá-la, fazer ela acreditar que seus planos estão saindo conforme a sua vontade, para que ela se sinta segura e confiante. E quando isso acontecer, eu quero estar pronta para acabar com ela.”
- Nossa... – Mel disse surpresa. – Isso é ... surpreendente. Você sempre foi tão passiva e....- Amélia sorriu sugestiva. – Mas gosto do que você está pensando. Quando começamos?
Lucy sorriu pela primeira vez desde que soube daqueles segredos. Não tinha a menor possibilidade de se encolher e esperar essa tempestade passar. Enfrentaria essa tormenta de pé, frente a frente.

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