Vitório
Uma vez mais olhou para a bela mulher ao seu lado.
Estavam a caminho de casa depois de aterrissar em São Paulo, e tudo o que Lucila disse a ele durante esse tempo, foi que estava se sentindo melhor. Mas não parecia.
Olheiras profundas, pele pálida ao extremo, e cansaço, muito cansaço. Lucila dormiu durante o voo inteiro, e parecia realmente prestes a colapsar, não sabia o que ela estava sentindo, mas imaginava que estava com dores fortes de estômago.
Ela não comeu nada desde a manhã anterior, e nem bebeu nada além de água. Vitório já tinha providenciado um médico para que a atendesse assim que chegassem em casa.
Não disse nada a ela para não perturbá-la ainda mais, pois sua esposa se negava a admitir que não estava nada bem.
Ícaro e Amélia também ficaram preocupados, apesar de sua cunhada lidar com Lucy com mais facilidade, como se ambas compartilhasse de um entendimento fora do alcance do universo masculino.
Olavo se aconchegou mais a mãe, ele tinha um tom de pele mais dourado, uma aparência saudável e relaxada. A tranquilidade de sua inocência da infância era muito bonita de se ver. Abraçando a cintura de Lucila, com ela acarinhando seus cabelos, seu filho permanecia descansando enquanto cochilava.
Lucila divagava olhando pela janela, totalmente absorta, sem notar a minuciosa avaliação de Vitório. Queria pegá-la em seus braços e a abraçar forte, perguntar o que estava acontecendo, acalentar seus anseios e dissipar suas dores, mas ainda sentia que ela queria manter certa distância entre eles, e isso estava enlouquecendo Vitório.
“Não sei porque está assim, coelhinha, mas eu vou descobrir. E se está pensando que vou te deixar ficar longe de mim assim, está muito enganada.”
Como se pressentisse o rumo de seus pensamentos, ela o olhou assustada, mas então sorriu brevemente. Não se tratava do sorriso verdadeiro de sua esposa, mas já era algum consolo.
- Estamos chegando ao Alphaville Park, senhor. – Tobias anunciou, com mesmo tom simples e sério de sempre.
- Obrigado, Tobias. – Vitório agradeceu, pegando o celular no bolso, sem desviar o olhar de Lucila.
De repente um suave rubor subiu pela face dela, e sua doce coelhinha desviou o olhar totalmente embaraçada por ter sido pega naquele gesto gracioso. Vitório sorriu.
Tudo parecia normal lá fora, o condomínio, a segurança e as casas luxuosas que os cercavam, mas subitamente, Vitório sentiu uma inquietação estranha que não soube definir do que se tratava. Digitando rapidamente na tela de seu celular, ele pediu que fizessem uma varredura no perímetro. Discretamente fez um sinal a Tobias, o motorista acenou no espelho retrovisor, e virou a direita, desviando da rua que abrigava a casa dos Darius.
Somente quinze minutos depois, quando a sua equipe de segurança confirmou que a varredura estava completa, e que não havia nenhum sinal de ameaça, foi que ele autorizou que o motorista os levasse para a casa.
Ao chegarem, Vitório carregou Olavo para dentro, seguido de Lucila. Depois de se certificar que seu filho estava dormindo confortavelmente, ele a esperou ligar o abajur e beijar o rosto sereno daquela criança que se tornou tão importante para ambos.
Quando saíram para o corredor, Vitório a abraçou forte e segurando seu rosto delicado, a beijou suavemente. Os suspiros de Lucila eram incontidos contra a sua boca, e embora suas mãos se perdessem nas curvas dela, ele podia sentir cada reação dela, e quando seu rosto ficou molhado pelas lágrimas quentes de Lucy, ele se afastou, limpando sua face com os polegares.
Seus lindos olhos de safira brilhantes, estavam atormentados, e ao mesmo tempo pareciam tão cheios de vida, de uma nova vibração. Vitório a levantou em seus braços com facilidade, e a levou para o quarto deles.
A luz suave do lugar pintava sombras em suas figuras, quando ele se sentou no divã e trouxe para o seu colo. Precisavam conversar sobre o que estava deixando sua esposa tão sensível desse jeito.
- O que está acontecendo, princesa? – perguntou, colocando uma mecha de seus cabelos sedosos atrás da orelha. – Porque um simples beijo a fez chorar assim?
Os olhos dele se prenderam nos dela, podia sentir o turbilhão que fazia sua esposa estremecer em seus braços. O lindo azul de sua íris estava revolto, tempestuoso, sua boca em forma de coração se contraia, como se ela lutasse uma terrível batalha.
- Lucila, eu concedi o espaço que você impôs lá na fazenda, quando deixou claro que não queria a minha presença. Mas não espere que vou repetir a mesma coisa. – segurando parte de seu rosto perfeito, e parte do pescoço esguio, ele a olhou com seriedade. – Não tente me afastar, não vou aceitar. Sei que algo te perturbou muito, então fale comigo sobre isso.
Subitamente, ela desviou o olhar, e se livrou de seu toque. Vitório podia ver algo cintilar em suas grandes safiras preciosas. Era raiva? Mágoa? Enquanto ainda ponderava a respeito, ela se livrou de seus braços e se levantou, caminhando para longe.
Vitorio acabou com a distância entre eles em poucos segundos, e a tentativa de fuga de sua esposa o enfureceu instantaneamente. Ela nunca o escutaria, estava determinada a ir embora, mas isso nunca iria acontecer!
Lucila se debateu em seus braços, como um belo e pequeno passarinho tentando escapar da gaiola, mas ele a prendeu contra a parede, segurando suas mãos acima de sua linda cabecinha.
O medo surgiu, substituindo a determinação, a mágoa.
- É compreensível que esteja com medo, princesa. – ele disse, aspirando o cheiro suave dela, com os olhos fechados. – Afinal de contas, existem monstros que se alimentam de escuridão ou de luz. E o meu, que sempre mantive longe, não vai aceitar ficar sem você, se sua luz hipnotizante. – Vitório deslizou a língua pela curva do pescoço de Lucila, sentindo um prazer doentio em vê-la engolir em seco. – Não se preocupe, querida. Mesmo que me odeie agora, e que me despreze pelo que descobriu, eu nunca deixarei que esse meu lado.... – Vitório sorriu cinicamente. - ...assuma o controle totalmente.
Os tremores do corpo de Lucila convergiam com o desejo poderoso que se apoderava dele, queria arrancar as suas roupas e mostrar a ela a quem ela pertencia, de uma vez por todas. Mas sua Lucila não estava forte o suficiente para isso.
Podia ouvir os barulhos em seu estômago se pronunciando. E no mesmo instante, sua raiva, seu monstro, se dissiparam, e ele a levou para o banheiro, onde segurou seus cabelos enquanto ela jorrava o conteúdo líquido de seu frágil estômago.
Lucila não protestou quando ele a amparou, mas evitava seus olhos através do espelho.
Vitório sentiu seu corpo gelar, quando algo golpeou a sua compreensão daquele estado doentio de Lucila.
Ela começou a vomitar e rejeitá-lo logo que chegaram à casa grande da fazenda. Foi nesse momento que ela descobriu sobre Astrid. E por isso Lucy estava doente, porque sentia...
- Está com nojo de mim, Lucila? – ele perguntou.
Finalmente seus olhos azuis o fitaram de volta, repletos de incredulidade.

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