- Como está se sentindo? – Vitório perguntou, enquanto dirigia pelas ruas da cidade em direção ao hospital.
“Estou bem. Ainda enjoada, mas estou quase me acostumando com isso toda manhã.” Lucy respondeu. Olhando pelo espelho retrovisor do carro, ela viu Olavo com a mesma preocupação que estampava a fisionomia do pai. Sorrindo para ele, ela se virou para tranquilizá-lo.
“Está ansioso para conhecer o seu irmãozinho ou irmãzinha, querido?” perguntou.
- Estou sim mamãe. Mas acho injusto que o aumento dos hormônios deixa as mulheres grávidas se sentindo mal. – ele respondeu com aquela forma peculiar.
- Isso não dura muito tempo, carinha. Logo a mamãe ficará livre desses sintomas. – Vitório ressaltou, olhando para o filho pelo retrovisor. – E como você sabe sobre hormônios de gravidez?
- É o básico da reprodução humana, papai. – ele respondeu, com uma careta entediada, como se a pergunta de Vitório o ofendesse.
Lucy e ele se entreolharam, o mesmo pensamento os atingiu. A inteligência e sagacidade de Olavo era muito impressionante, esperavam investir em todo o seu potencial, com coisas que o estimulassem e que ele gostasse muito.
Pensando no quanto essa criança poderia ter evoluído se tivesse o apoio de seus pais desde muito pequeno, Lucy sentiu mais uma vez um aperto no peito por não ter encontrado Olavo antes.
Talvez fosse o momento de conversar com ele, explicar a verdadeira natureza de suas raízes. Seu marido era muito próximo do filho, e se dedicava a Olavo todos os dias, solidificando esse vínculo que se fortalecia cada dia mais. Não sabiam o que Astrid planeja, e nem mesmo como ela usaria o fato de ser a progenitora do menino para se vingar de Vitório, portanto era melhor se precaver, e conversar com seu filho e instruí-lo sobre o que estava por vir.
No entanto, suas divagações foram interrompidas pela mudança repentina na forma como seu marido os conduzia ao seu destino. Na via expressa que levava ao hospital, Vitório passou a dirigir mais rápido, cortando o trânsito com habilidade e destreza. Em seu rosto, máscara rígida e fria se formou, e então Lucila percebeu que um carro preto os seguia pela via rápida sem o menor cuidado com a segurança dos outros motoristas.
Dois carros foram fechados, motociclistas estavam sendo jogados para fora da pista, e o carro continuava avançando na direção deles. A intenção era clara, os atingir.
Vitório pegou o celular, e ligou para alguém. No banco de trás, Olavo ficou apreensivo, e perguntou.
- Mamãe, papai, o que está acontecendo? Por que estamos indo tão rápido?
Lucila se virou para falar com o filho, no entanto seus pensamentos estavam concentrados no perigo que corriam, e a voz de Vitório tão grave a deixou ainda mais temerosa.
A cada segundo, a SUV preta se aproximava como um predador decidido, e o instinto maternal de Lucila se transformava em desespero puro. O braço dela, por reflexo, buscava o corpo pequeno de Olavo no banco de trás, tentando protegê-lo e confortá-lo do seu toque, como se pudesse blindá-lo dessa loucura que estava se desenrolando.
A incredulidade queimava dentro dela.
O homem ao seu lado, o mesmo que a envolvia em beijos ternos e a fazia sentir-se amada, agora soltava ordens de execução com a mesma naturalidade de quem pedia um café.
“Os faça desaparecer.”
As palavras reverberam em sua mente, como ecos de um mundo obscuro ao qual Lucila nunca teve acesso. A frieza de Vitório, a calma controlada com que lidava com a morte iminente, a aterrorizava e, ao mesmo tempo, a fazia compreender que aquele era o homem em quem ela confiava a vida. Mas como conciliar o amante devoto, o pai carinhoso, com o executor implacável?
No espelho, Lucila assistiu a cena que mais parecia um filme de ação. O carro forte maior, bateu contra a SUV preta que os perseguia, a empurrando contra os protetores laterais da pista. Os bandidos começaram a atirar contra quem os atacou, mas o carro maior parecia não sofrer nenhum arranhão. Um pandemônio se instaurou na via expressa em razão da troca de tiros, e mesmo assim, Vitório não diminuiu a velocidade, os levando para mais longe possível.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Esposa Muda do CEO