Ícaro
- Tem certeza que isso foi uma boa ideia? – a pergunta de Ticiano o pegou de surpresa.
Estavam em sua sala falando sobre os novos projetos, e haviam várias cópias de contratos sobre sua mesa. Do lado contrário, seu assistente e amigo, falava de uma forma casual, porém estava evidente que ele não falava de trabalho nesse momento.
Ainda olhando para as folhas do relatório na pasta em suas mãos, Ticiano abordou o assunto.
- Acha que virei vidente para saber que de que porra está falando?
- Sabe do que estou falando, senhor. – respondeu seu amigo.
Como sempre, Ticiano permanecia separando o ambiente familiar e o ambiente profissional. Não adiantava pedir que ele agisse de maneira informal, como amigos que eram.
- Não sei do que se trata. – Ícaro desconversou, apesar de imaginar do que se tratava.
- O senhor Vitório não ficará nada feliz em saber que se envolveu diretamente nessa história. – Ele disse, ajeitando os óculos. – Além do mais, a reunião ordinária com a Strauss está prevista para amanhã a noite. Tudo pode se complicar.
- Estou me lixando se ele vai gostar ou não. – Ícaro respondeu. – Astrid desonrou o nome dessa família de várias formas, e eu não vou permitir que ela nos ameace, mesmo que tenha que enfrentar Hans Andersen.
A simples menção ao nome de Astrid trazia de volta a sensação ácida de traição, não apenas contra ele, mas contra todos os Darius. Ela havia envenenado suas vidas, manchado seu sobrenome, e agora ousava voltar para se alinhar a um homem poderoso, achando que poderia ditar os rumos do império que eles haviam erguido com suor e sangue.
Para Ícaro, isso era inaceitável.
Seus punhos se cerravam instintivamente, e a ideia de curvar-se diante da manipulação daquela mulher era tão absurda que a cólera o incendiava por dentro.
Era como um chamado pessoal, um acerto de contas que vinha sendo adiado há tempo demais. Se Hans Andersen era o escudo que ela havia encontrado, Ícaro não se intimidava; sabia que desafiar o homem seria arriscado, mas ainda assim inevitável.
O que importava agora era impedir que Astrid continuasse a mover as peças de um jogo sujo que só ela conhecia. Seu olhar, afiado, refletia a determinação de quem já não via outra saída a não ser confrontar a maldita meretriz, custasse o que custasse. Para ele, não era apenas uma questão de negócios, era uma questão de honra.
- Enviou as fotos que desapareceram do seu arquivo de forma sigilosa, ou falou diretamente com Andersen?
- Falei com ele ontem a noite. Houve um jantar de boas-vindas em Sierra Madre. – respondeu, se referindo a um dos hotéis cinco estrelas da cadeia de turismo pertencente a Strauss. – Alguns parceiros de negócios foram convidados.
- E o senhor sutilmente se aproximou de Andersen e mostrou a ele fotos comprometedoras e imorais de sua nova esposa? – Ticiano perguntou incrédulo.


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