Lucila
- Minha menina, todos já chegaram. – Mila anunciou da porta do seu quarto.
Haviam convidado os irmãos e suas famílias, portanto hoje, a mesa estaria cheia. Lucy queria que seus pais também estivessem presentes, para essa ocasião, fazia tanto tempo que eles não ouviam sua voz, e se esforçaram tanto para que ela a recuperasse, mas nada deu certo.
No entanto, Vitório, o seu ogro em forma de marido, se opôs. Disse que eles estavam viajando e que de qualquer forma estragaria a surpresa se contassem a novidade por telefone.
Lucy sabia que não era só isso.
Lá no fundo, sabia que as notícias já tinham chegado aos seus pais, e certamente Vitório estava lidando com aquilo sozinho, à sua maneira. Ela não conseguia culpá-lo....essa era sua natureza, e para ele, seria incompreensível que seus pais nunca tenham percebido o que Felipe estava fazendo com Eric.
Só uma pessoa percebeu que ela tinha medo de Felipe, e ela agiu da única forma que podia.
- Mila, entre, por favor. – chamou Lucy, alisando sua garganta.
Era desconfortável usar as cordas vocais constantemente. Tinha sessões de fono e de fisio no fim da tarde, para se acostumar com o uso de partes de seu corpo que passou a vida toda praticamente adormecida.
Quando a velha senhora entrou, ela sorriu. Mila chorou muito quando a ouviu falar, e agora sempre que ouvia sua voz voltava a ter os olhos marejados.
Lucila se aproximou, e a abraçou forte, beijando sua face.
- Você pode terminar de fechar o meu vestido? – Lucy se virou, olhando para o espelho e alisando o tecido brilhante do chiffon laranja claro, com nuances em rosa. Ela subiu as mãos até o busto que ficava cada vez mais apertado conforme Mila subia o zíper. – Acho que eles já estão ficando maiores.
- Daqui a pouco, vai precisar comprar roupas novas, menina. – Mila respondeu com um sorrisinho afável. Quando terminou de fechar o vestido, ela a admirou. – Está linda, como uma rosa desabrochada.
- Obrigada babá. – Lucy sorriu feliz. – Estou um pouco ansiosa. – Ela se virou, segurando os ombros da boa senhora que a acompanhava desde pequena. – Posso te perguntar uma coisa, Mila?
- É claro, menina. Vamos, diga.
- Você sabe o que está acontecendo, não é? – ela assentiu. – Eu queria que meus pais estivessem aqui hoje, mas imagino que a situação se tornou delicada, e agora não sei se devo ou não insistir que venham, para contar sobre o bebe e sobre a minha voz. O Vitório está os afastando, e eu sei que ele só quer me proteger, mas... eles são os meus pais, eu me sinto culpada.
- Menina, seu coração sempre foi bom e puro, por isso se sente desse jeito. – Mila parece pensar no que dizer. – Seus pais devem estar um tanto chocados com o que aconteceu, e vai levar um tempo para.... – Mila desviou o olhar. –
- Para que, Mila? – Lucila perguntou, insistente.
- Para entenderem tudo isso que envolve o falecido filho deles. – Mila apertou mais as mãos dela entre as suas. – Eu mesma ainda estou processando tudo, mesmo sentindo que o senhorzinho às vezes era...
Lucila se virou para ele, dando as costas para o espelho. Desconcertada, buscou nos olhos de sua antiga babá algum sinal de que tivesse interpretado errado essa fala.
- O que? O que o Felipe era Mila?
- Eu não sei dizer, menina. – Mila ficou aflita subitamente, parecia atormentada. – Não é certo falar dos mortos, mas eu sentia calafrios quando via aquele menino com você. Mas ele sempre se portava com tanta educação e dedicação, que eu achei que era coisa da minha cabeça. Fiquei pensando nisso todo esse tempo em que essa bomba estourou, e agora vejo que devia ter feito mais, que devia ter notado que aquela insistência em ficar com você, te por pra dormir, te levar para as piscinas e para passear, tinha um propósito!


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