Ticiano
Ele olhou para suas anotações e depois para a mesa organizada com as fotos tiradas do mural no apartamento de Astrid.
Ia acontecer hoje. Era inevitável.
A fumaça do charuto de Vitório o envolveu, mas ele não se importou, estava acostumado ao tabaco mesmo não sendo fumante. Ícaro andava impaciente pelo escritório do irmão mais velho, enquanto Alberto, analisava tudo que estava sobre a mesa minuciosamente.
- Você tem certeza de que ela consegue fazer isso hoje? – perguntou Ícaro, pela enésima vez. – Disse que ela estava cansada e que precisava de repouso. Nós nem sabemos como as fotos serão entregues!
Ticiano entendia a preocupação de seu chefe e amigo, afinal de contas ele considerava Lucila como sua irmãzinha mais nova. No entanto, Vitório estava confiante de que sua esposa poderia continuar com aquele plano de ludibriar Astrid para ganhar tempo.
Segundo Bianca, que estava escondida no apartamento de Ticiano, depois de sobreviver a mais uma tentativa de assassinato no hospital; a maníaca agiria hoje, sem nenhuma falta. O sistema de software roubado da Acrópole já estava online, e a invasão no monitoramento interno da holding estava funcionando desde a noite anterior.
Roberto e Tiago estavam trabalhando sem descanso para encontrar a origem do IP usado pelo servidor central que a louca estava usando, mas certamente ela conseguiu alguém muito bom para fazer o trabalho de tecnologia.
- Não podemos continuar tratando a minha mulher como se ela fosse de cristal. Apesar de estar indisposta, a Lucila está segura de que dá conta disso. Eu acredito nela. – Vitório respondeu, com uma carranca fria.
Ele não gostava da ideia de envolver sua esposa preciosa, mas sabia que se queriam se livrar da psicopata que ameaçava a família inteira, tinham que ser mais inteligentes e mais vorazes que ela.
- Ela é muito sensível, Vitório. E se...
- Pare com essa porra, Ícaro. – bradou Alberto. – Parece uma mulherzinha afetada.
- Retire o que disse, seu escroto. – rosnou Ícaro, já avançando para Alberto.
- Está atrapalhando com essa baboseira. A Lucila cresceu, é uma mulher feita. Ela não vai quebrar por ter que lidar com essa merda! – retrucou Alberto, tirando o blazer e arregaçando as mangas.
Ticiano suspirou fundo. Eles iam mesmo se pegar no soco antes do expediente?
Que merda de amigos ele foi arrumar.
O vulto de Ícaro passou por trás de sua cadeira, mas ele nem mesmo olhou, estava acostumado.
- Já chega. Caralho! – Vitório os parou.
Uma mão estava na nuca de Alberto e a outra na de Ícaro. Ele era o mais alto, e o mais experiente, quando queria Vitório acabava com uma briga em segundos. Os irmãos se encararam como dois touros ensandecidos.
- Temos problemas demais por agora. Essa é a única droga de sala que podemos usar sem ser ouvidos por aquela vadia louca. Então parem, ou caiam fora!
- Continuando... – Ticiano disse, tentando amenizar a tensão opressiva. – As fotos serão enviadas para Lucila, ela virá até aqui para confrontar o Vitório. Todos os funcionários do andar da presidência estão de sobreaviso para não mencionar o nome dela de forma alguma, porque se deixarem escapar que ela é capaz de falar, a credibilidade desse plano já era.
- O que vamos fazer quando ela vier aqui? – Ícaro perguntou. – Digo, não seria natural que eu ou esse escroto aí do seu lado tentássemos ajudá-la?
- Não. Isso chamaria muita atenção, e seria trabalhoso fazer a Lucila encenar mais uma conversa usando o celular para se comunicar. Não se esqueçam que a partir do momento que ela entrar no prédio, a Astrid irá hackear o aparelho dela. É por isso que o Vitório preparou um aparelho fake para isso.
- O celular que ela vai usar é um novo aparelho, na qual deixamos somente informações que queremos que a vadia acesse. Isso irá corroborar a encenação de que não estamos bem, e que eu a desprezo. – Vitório completou.
- Eu não fazia ideia disso. – Ícaro resmungou praguejando. – Mas não é perigoso mandá-la para casa sem um celular que possa usar?

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