Vitório
A manhã se arrastava em tons de aço e vidro na Acrópole, refletindo a imponência da holding que há décadas dominava o panorama arquitetônico mundial. Do 47º andar, a vista panorâmica de São Paulo parecia uma maquete viva, linhas geométricas e fluxos de vida se entrelaçando embaixo dele enquanto Vitório ajustava discretamente os punhos da camisa e observava a mesa oval diante de si.
A sala de reuniões, ampla, moderna, minimalista, ocupada por telas holográficas e painéis interativos, era o palco perfeito para mais uma disputa silenciosa entre gigantes corporativos.
Do outro lado da mesa, quatro investidores japoneses, representantes da terceira maior corporação imobiliária de Tóquio, já aguardavam. As expressões reservadas, corteses, indecifráveis. Homens acostumados a negociações longas, estratégicas e impecavelmente calculadas.
Vitório inspirou fundo, precisava de concentração total, o que vinha se tornando cada vez mais difícil conforme sua vida se tornava uma cama de gato. Se preocupava com Lucila, que adiantava na gestação arriscada, sem querer ficar totalmente de repouso, se esforçando para escolher cada detalhe do quarto dos bebês, para abrigar Beth, para ajudar Bianca e a filha dela.
Isso estava desgastando sua esposa, mas ela não percebia. Estava feliz e ele não tinha coragem de obrigá-la a parar um pouco e só descansar. Mas não conseguia evitar temer as consequências de tanta agitação.
— Arigatō gozaimasu, por aceitarem a reunião pessoalmente. — disse ele em japonês impecável, quebrando o silêncio inicial. Ser um poliglota, tinha suas vantagens. A Acrópole quase nunca precisava de um intérprete.
Os executivos se entreolharam, impressionados com a fluidez do idioma. O mais velho deles, Sr. Kenji Aoyama, inclinou levemente a cabeça.
— Darius-san, sua cortesia honra nossa parceria. — Sua voz tinha o timbre sereno de quem já atravessou guerras econômicas e saiu vencedor. — Estamos ansiosos para ouvir suas projeções sobre o complexo de Kyoto.
Vitório tocou a superfície da mesa. As telas se ativaram. Projetos arquitetônicos em 3D surgiram, volumetrias flutuando sobre a mesa como esculturas de luz.
— A Acrópole propõe um triângulo sustentável articulado — começou ele. — Um centro de convivência, um hub tecnológico e uma infraestrutura corporativa que conversam entre si como um único organismo urbano.
O Sr. Hiroshi, mais pragmático, ajustou os óculos.
— Nosso conselho teme que o terreno histórico limite a expansão.
Vitório ampliou o holograma e mostrou a topografia.
— O terreno não limita… redefine. Estamos aplicando o conceito de harmonia com o relevo. A construção se encaixa na paisagem como parte dela. Menos impacto, mais eficiência. Energia geotérmica. Ventilação cruzada japonesa tradicional reinterpretada para as torres.
— E o custo? — indagou a Sra. Minami.
— Alto. — Vitório nunca mentia para os investidores. — Mas o retorno será maior.
Os japoneses trocaram um olhar rápido. Ele percebeu a hesitação, natural, calculada, parte do jogo.
A reunião prosseguiu por horas.
Discussões sobre licenças territoriais, estudos de impacto, ajustes estruturais, debates sobre materiais resistentes a terremotos, prazos de obra. Eles queriam garantias, e Vitório oferecia precisão. Era um duelo elegante.
Quando o assunto parecia encaminhado, a Sra. Minami levantou outra questão.
— E quanto à segurança digital? Precisamos ter plena confiança nos servidores, já que usaremos nosso próprio sistema de dados integrado.
Vitório sequer piscou.
— Os protocolos da Acrópole são monitorados 24 horas por uma equipe especializada. Não há a menor possibilidade de acessarem o projeto sem o aval de vocês.
Palavras que, ironicamente, tinham o gosto de veneno, pois o lembrava da façanha daquela vadia psicopata.

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