Vitório
- Você tem certeza? – perguntou rudemente a médica à porta do helicóptero.
- Sim, Sr. Darius. Sua esposa vai ficar bem, deve escolher agora se quer ir com ela, ou prefere que eu vá e monitore seu estado e o dos bebês.
- Vá com ela. – disse firmemente.
Por mais que não quisesse sair de perto dela nenhum segundo, tinha que ser racional nesse momento em que cada célula do seu corpo reagia a ela. Lucila precisava do monitoramento de um médico, ela tinha perdido sangue e estava grávida.
Se afastou quando a aeronave começou a decolar, com toda a sua vida lá dentro.
Demorou muito para encontrá-la. Ela estava ferida por sua culpa. Se tivesse mantido ela em casa, sem sair, sem se arriscar, nada disso estaria acontecendo. Falhou em protegê-la.
- Ela está bem. O rastreador falhou devido às interferências das torres de tv e telefonia, e mesmo assim você a encontrou. – Alberto disse alto para se fazer ouvir em meio ao vento.
- Se ela estivesse morta... – disse, ofegante, seu corpo queimando como se fosse feito de brasas.
- Mas não está. E precisa decidir como vai acabar com isso. A Lucila vai querer te ver quando acordar no hospital.
A escuridão que se entranhava em Vitório não era apenas raiva, era algo muito mais feroz, primitivo, um grito silencioso que incendiava cada músculo, cada fibra de seu corpo.
O vento frio batia contra seu rosto enquanto observava o helicóptero se afastar, levando sua esposa ferida, a mulher que era o centro da sua vida, o pulso do seu coração, e aquilo o dilacerava como se arrancassem sua própria carne.
Ele respirava de forma irregular, o maxilar travado, os olhos convertidos em carvão incandescente. Aquele demônio desgraçado tocou no que era dele, a fez sangrar. Quebrou o que ele jurou proteger. Era inconcebível.
Ele virou para Alberto, a voz mais grave e sombria do que o habitual, tão espessa quanto um trovão prestes a desabar.
— Onde aquela vadia imunda está?

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