Vários deles queriam fazer perguntas, mas Vitório prosseguiu, como se não os visse com as mãos levantadas.
- Os monstros raramente têm a aparência que esperamos. Alguns usam terno. Outros usam jaleco. Outros se infiltram como amigos, como confidentes, como “anjos da guarda”. E quando percebemos… já arrancaram a luz dos olhos de uma criança.
Nesse momento, uma repórter que esteve quieta esse tempo todo, ergue a mão.
— Sr. Darius, em suas palavras, os monstros se disfarçam de salvadores. O que exatamente quis dizer com isso? Está acusando alguém?
Yara Flores, a relações públicas da Acrópole, tenta intervir
— O Sr. Darius não responderá perguntas. Isso já foi esclarecido antes. Por favor, respeitem as regras desta coletiva.
Vitório acena sutilmente, reconsiderando sobre essa pergunta específica. Era essa a deixa que precisava.
— Estou falando de algo muito pessoal. – ele fez uma pausa olhando para todos eles.
Ticiano e Ícaro cochicharam às suas costas.
“O que ele está fazendo?!”
Mas Alberto os calou.
“Ele está garantindo que os Drumond percam tudo de uma só vez. Inclusive o que tanto lutaram para preservar. A imagem perfeita daquele sociopata do caralho.”
Os outros imediatamente se calaram.
Vitório continuou.
- Quero compartilhar hoje algo que mudou a vida da mulher que tem o meu sobrenome, e com a qual divido minha vida e meus objetivos. A minha esposa, Lucila, foi vítima de anos de tortura e abuso nas mãos de alguém que seus pais adotivos, protegiam como se fosse uma divindade. Hermes e Amanda Drumond ignoraram sinais gritantes de maus tratos e abuso, que a criança que adotaram, na época com somente quatro anos, exibia constantemente. Eles fecharam os olhos, e permitiram que o mal crescesse dentro da própria casa, até arrancar a voz da minha esposa em uma atitude cruel de silenciar a monstruosidade que ela sofreu. Ela ficou completamente sem voz, gritando em silêncio por todas as agressões que não podiam mais ser punidas, pois o seu torturador, em uma das inúmeras tentativas de matá-la, acabou morrendo.
O choque e o espanto estava estampado nos rostos e olhos que o encaravam.
- Por anos, ela, que era só uma criança, sofreu sozinha. Negligenciada cruelmente por quem deveria protegê-la, e ignorada por todos que a cercavam. Esse é o tipo de coisa que deveria estar em destaque em suas revistas, jornais, matérias e vídeos da internet. Esse é o tipo de coisa que deveria despertar fúria, debate, revolta e horror. Não o fato de eu ter administrado um clube privado de adultos enquanto era um homem solteiro. Monstros se disfarçam como querem, e a mídia, ao invés de expor essas atrocidades, prefere cavar a vida íntima de quem tenta proteger os seus.
A mesma repórter que fez a pergunta importante, levantou a mão agora. Ela tinha lágrimas nos olhos.
- Sr. Darius. E como está a sua esposa agora? Ela conseguiu superar toda essa dor?
- Minha esposa está segura agora. Ela está se libertando de tudo que a calou por todo esse tempo. E eu me considero o homem mais abençoado do mundo por poder cuidar dela e dos nossos filhos. Por isso, digo a todos vocês. Não ousem transformar minha família em espetáculo outra vez. Não deixarei que nenhum abutre, seja um hacker, criminoso ou repórter sedento por sangue, coloque sequer um dedo sobre quem está sob o meu cuidado. E se ainda existe decência nesta profissão, espero que daqui para frente vocês gastem suas manchetes investigando o que realmente importa. As crianças que ninguém ouviu, que ninguém viu, e que ninguém protegeu. Até hoje não vi ninguém se preocupando com as vítimas do Dr. Eric DelaVille.
Ele fez uma pausa, e concluiu num tom pesado e criterioso.

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