Lucila
O cheiro de Vitório foi a primeira coisa que ela identificou ao acordar. Aquele cheiro gostoso, viciante, carregado da essência dele.
Em seguida, foi a dor. Não havia parte de seu corpo que não estava dolorido, mas a sensação de inchaço e incômodo era muito maior, e vinha principalmente de sua intimidade, que praticamente implorava por descanso.
Mesmo assim, um sorriso tímido lentamente curvou seus lábios. Ela sabia que toda mulher ficava dolorida depois de perder a virgindade, mas o que estava sentindo era muito mais que isso. Entretanto, essa sensação de fraqueza extrema e de sentir que seu corpo estava rasgado não a surpreendeu, pois depois de uma noite inteira fazendo amor com um homem como Vitório, era impossível que se sentisse diferente.
O aroma irresistível de café maltado, o seu preferido, chegou até as suas narinas. Lucila se apoiou nos cotovelos, com uma careta de dor. Uma bandeja de café da manhã estava disposta no criado mudo.
Havia torradas, frutas, o café, suco de laranja, iogurte, ovos pochê, e uma delicada rosa branca colhida do seu jardim. No canto esquerdo estava um bilhete dobrado.
Ela sabia que Vitório tinha o hábito de madrugar, e que provavelmente já era muito tarde. Mas pensou que ele estaria na cama depois de uma noite inteira de tanto.....vigor.
Lucila sentiu seu rosto queimar, com as lembranças das horas em que ele a amou com paixão, ambos explorando e descobrindo seus corpos como se nada mais importasse, como se a tempestade fizesse parte daquele ato tão intenso e cheio de sensações indescritíveis.
Não imaginava que ele poderia ser tão sensível, tão romântico e delicado; e ao mesmo tempo tão másculo, rústico, e ...deliciosamente forte, bruto!
Seus olhos se fecharam por um instante, se lembrando de como ele se levantou no meio da madrugada, totalmente nu, sua figura recortada pela luz fugaz dos clarões dos raios e trovões, quando fechou as portas do terraço. Com todo o cuidado e ao mesmo tempo ansiando por ela, Vitório trocou os lençois molhados da cama, e em seguida a carregou em seus braços de volta para aquele ninho, voltando a fazer amor com Lucila.
Seus dedos pequenos, traçaram seu pescoço, onde Vitório beijou, roçando sua barba, sentindo o calor da pele dela. Seu corpo dolorido reagiu imediatamente aquela sensação, fazendo Lucila se surpreender com o poder do desejo e da atração que sentia por ele.
Seria sempre assim agora?
Sempre que se lembrasse dessa noite inesquecível, se sentiria como se ele estivesse novamente desbravando seu corpo como se pertencesse somente a ele?!
O coração disparou ao pensar em como parecia tão perfeito, tão certo, o beijo, a entrega, a fusão de seus corpos.
O da esposa abandonada, que espera ansiosamente por qualquer migalha de afeto, de atenção....
Por mais que seus sentimentos por Vitório se perpetuassem com essa noite, ela devia a si mesma uma atitude. A de não ser mais mulherzinha de mentira de um Darius.
Encontrou seu celular perdido no aparador do corredor. Verificou seus recados. Havia um do advogado que estava cuidando da situação de Olavo, ele queria falar com ela em seu escritório em duas horas; precisava se apressar.
Lucila se aproximou do quarto de hóspedes. Imaginava que ele estaria dormindo, ainda eram oito da manhã. Possivelmente Olavo não teve descanso e tranquilidade nas ruas, por isso, era natural que ele se sentisse seguro agora para recuperar o sono perdido.
Abriu uma pequena fresta, constatando que o menino realmente estava dormindo tranquilamente. Um olhar em torno do ambiente a surpreendeu. Ela não tinha entrado ali depois que Tobias chegou com as compras, e Vitório subiu para mostrar algumas coisas para Olavo.
Não era decoração. O que via era um jeito despojado de dizer que naquele quarto tinha uma criança. Havia jogos espalhados na escrivaninha, o edredom era jovial sem ser muito infantil, em tons de azul e verde, o tapete era uma espécie de pista de corrida maluca, um puff em forma de bola de futebol jazia no canto, e vários cards do jogo do momento estavam empilhados sobre o criado mudo.
As roupas estavam dobradas perfeitamente em pilhas ao lado do armário, elas foram organizadas por cor, os pares de tênis e também. A ordem contrastando com a bagunça era uma forte evidência de que Olavo foi induzido a continuar arrumando o quarto outra hora. Alguém que gostava de jogos de cards e que achava o máximo jogar futebol e disputas no tabuleiro e no tatame.

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