A conversa com Ticiano ainda turvava seus pensamentos.
Aquela maldita desgraçada tinha um filho com Fernando Vidal, e a criança tinha o mesmo nome que aquele pobre garoto que apareceu em sua casa no meio da noite.
Uma coincidência estranha que deixou os seus instintos eriçados.
Enquanto dirigia, o rosto de Olavo e seu jeito peculiar voltou a sua mente. Só ficaria tranquilo quando soubesse exatamente de onde aquele menino saiu, e por que ele decidiu ir direto para Alphaville Park.
Quando conversou com ele no dia anterior, percebeu que o menino estava tão curioso sobre Vitório, quanto ele sobre a criança. Foi interessante perceber o quanto ele se tornava evasivo quando qualquer tópico levava a assuntos como; onde ele dormia, com quem esteve, se frequentava a escola.
Vitório puxou o ar frio do interior do carro, com força.
Seja lá o que estivesse escondendo, não ia demorar para que soubessem. Portanto, tinha que fazer Lucila entender que precisavam ser cautelosos e informar as autoridades sobre a presença do menino na casa deles, e assim evitar problemas judiciais.
Esperava que aquela visita ao Efraim Carrano tenha sido para isso, e não para qualquer atitude precipitada e impensada.
Já passava das oito quando adentrou a propriedade bem iluminada. Na garagem, percebeu que o carro dos Drumond não estava lá e ficou aliviado com isso.
Não pretendia abordar o assunto do garoto com Lucila, mas um tempo a sós com ela era necessário.
Precisava entender o que estava acontecendo, e por que ela estava o evitando.
Adentrando a casa, ouviu o som dos doces acordes de Schumann. Isso só significava uma coisa. Ela estava totalmente sozinha, e usava esse momento com o que apreciava em segredo. A música.
Lucila não queria que ninguém soubesse dessa paixão, e ele nunca questionou seus motivos, porque sabia que era algo muito íntimo e profundo para ela.
Mesmo sabendo que ela só tocava quando não tinha ninguém para ouvir. Ele se aproximou silenciosamente, observando qualquer sinal de que Olavo estivesse por perto, afinal de contas, agora havia uma criança na casa.
Entretanto, não havia ninguém, até os funcionários foram dispensados mais cedo.
Entrou na sala admirando aquela visão maravilhosa. Lucila ao piano, com somente um facho de luz ambarada a iluminando, enquanto dedilhava as teclas cheia de sentimentos.
Vitório já havia assistido inúmeros concertos cheios de técnica, talento e destreza, mas nunca viu ninguém tocar piano como ela. Sua esposa derramava sua alma naqueles acordes, nas notas suaves que criavam a melodia tocante.
A observou em silêncio, fascinado com sua figura. Ela vestia um vestido branco fluido, com recortes que deixam suas costas nuas, seus lindos cabelos estavam soltos, seus ombros eretos, desnudos. Vitório podia sentir a necessidade de abraçar e beijar Lucila, crescendo cada vez mais.
Quando o último acorde soou, ele saiu das sombras, caminhando até ela.
Lucila não levantou os olhos, mas o ligeiro tremor em suas mãos deu a ele a certeza de que ela o viu ou sentiu sua presença.
- Faz muito tempo que não te ouvia tocar. – comentou, escorando na cauda do piano. – Esses sempre foram suas composições preferidas.
Vagarosamente, seus lindos olhos de safira se levantaram, encontrando os dele. O calor das águas tórridas daquele olhar rapidamente se tornou gelado. Lucila levantou, sem nem mesmo tentar falar com ele, mesmo que seu celular estivesse ali, ao lado do piano.
- Não pode fugir de mim para sempre, Lucila. – Vitório disse, rapidamente cruzando seu caminho. – Pegue o seu celular, precisamos conversar. – concluiu no tom mais brando que conseguiu.
Não pretendia contar para ela assim. Isso só traria mal entendidos, como agora.
“O que? Achou que eu seria estúpida a ponto de não perceber que você lia meus movimentos antes de me responder?! – ela fez uma pausa, seus olhos faiscando de raiva. – Pois eu tenho uma novidade para você, Vitório. Apesar de você me considerar incapaz e até mesmo boba, eu não vou deixar mais que me trate dessa forma!”
O peito dela subia e descia, sua imagem banhada pela luz da lua e o neon do aquário criava uma aura etérea, atraente, irresistível. Vitório ponderou apenas alguns segundos sobre suas opções.
Lucila tinha razão em estar zangada, mas isso não queria dizer que ela não sentia nada quando se tocavam. Só tinha duas opções nesse momento crucial. Se afastar dela e deixar que ela processasse uma justificativa, ou... fazer ela se arrepender por evitá-lo o dia todo e ainda tentar tratar a noite passada como algo sem valor!
Um sorriso insidioso curvou os lábios dele, enquanto tirava o blazer.
A raiva foi substituída por confusão no rosto dela.
“Por que está sorrindo, seu cretino?” perguntou ela, cruzando os braços na altura dos seios.
Vitório dobrava as mangas da camisa preta, despreocupadamente. Seus olhos fixos nela. Quando ele deu o primeiro passo em sua direção, Lucila deu um para trás. Naquele rosto perfeito havia tensão, ansiedade, reserva, mágoa... mas também havia a mesma chama que incendiava o peito dele. Desejo.
“O que você vai fazer?! Eu não quero que se aproxime! – ela deu mais um passo para trás, se encostando na parede fria de mármore. – Eu disse que foi sexo de uma noite! Não há mais nada que...”
A centímetros de sua linda esposa encurralada contra a parede, Vitório colocou uma mão de cada lado de seu corpo, aspirando seu perfume abertamente.
- Não há mais nada entre nós. É o que ia dizer, princesa? – ele perguntou, de encontro a boca dela. – O problema é que eu ainda não estou satisfeito.... – seu corpo pressionou o dela com força, fazendo Lucila sentir a extensão do seu desejo. – E acho que você deve assumir a responsabilidade sobre isso, princesa. E já que para você... – Vitório segurou o queixo dela, e o contornou com sua língua, provocando tremores no corpo pequeno sob o dele. - ... foi só sexo, tenho certeza que não vai se importar em repetir a dose!

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