Lucila
Olhando para eles assim, ninguém diria que não são pai e filho.
Olavo observava o céu pela lente do telescópio de última geração, enquanto Vitório ao seu lado, segurava um mapa estelar, o instruindo para onde apontar. Eles ficariam horas observando as estrelas, os planetas, como fizeram nos últimos dois dias.
Não sabia dizer exatamente quando isso aconteceu, porque seu marido sempre tratou o menino que ela acolheu com consideração, carinho e muito respeito por seus sentimentos; mas eles se aproximavam a cada dia mais.
E aos poucos, o medo de Vitório se negar a prosseguir com a adoção, foi desaparecendo lentamente.
Nesse tempo, ele se dedicou aquela criança de corpo e alma, sempre chegando no horário para conversar com Olavo sobre a nova escola, brincar, tomar sorvete juntos, ou só assistir televisão um encostado no outro.
A cada momento que Olavo passava com Vitório, ele se tornava mais aberto a afeto e contato físico. E também se parecia mais com o homem que ele estava vendo como um modelo.
Ali sentada na enorme chaise-longue de couro off-with, no terraço de sua suíte, ela sabia que Vitório também já tinha Olavo em seu coração.
Os cabelos prateados de Vitório dançavam com a brisa fresca da noite, sem camisa, descalço e de bermuda, ele parecia só um homem passando um tempo com sua família. O CEO com aquela fama imponente e fria, não estava ali, esse momento era só para eles.
E mesmo sem querer, ela começou a pensar que poderiam viver assim, que poderiam se tornar essa família. Ao se levantar e caminhar em direção a eles, ela soube que em seu íntimo ainda havia uma parte da antiga Lucila, que acreditava que Vitório seria o seu marido até o fim.
Que teriam filhos, assim como Olavo, que seriam felizes, e ficariam velhinhos juntos.
Não se sentia capaz de trancar essa porta agora, não com a presença e o calor de Vitório envolvendo seu corpo todas as noites. Não quando Olavo estava cada dia mais adaptado a eles, mais tranquilo, e sorrindo naturalmente, como se seus sorrisos não fizessem parte de sua vida anterior.
Isso não podia ser ignorado, fechado em um canto distinto do seu coração.
Se um dia ele fosse embora, ou decidisse que ela não era mais o bastante para ele, iria doer muito, seria muito difícil e degradante. Mas sentia que se não vivesse esse amor, esse momento com eles, nada mais faria sentido.
Uma vez abandonou tudo o que mais amava pela opressão de outra pessoa. A música, lembranças preciosas de sua infância que foram destruídas por não obedecer inicialmente, bonecas de porcelana que ganhou na primeira visita de Amanda e Hermes ao orfanato; tudo foi quebrado, destruído.
Entretanto, não era mais uma criança, e também não havia mais ninguém para obrigá-la a agir como uma marionete.
Tinha que ter coragem para tomar suas próprias decisões. E enfrentar as consequências que viriam com elas.
Já tinha começado a tomar pílulas anticoncepcionais logo depois da primeira vez com Vitório, por conta própria. Na próxima semana tinha uma consulta com sua ginecologista para colocar um implante subcutâneo anticoncepcional.
Pousou as mãos sobre os ombros de Olavo. Esse não era o momento para uma gravidez. Esse menino precisava de toda a atenção que pudesse dispensar. E se precaver com Vitório era o melhor caminho para não se ferir ainda mais.
Se engravidasse acidentalmente, ele poderia ficar. Talvez. Mas ela nunca saberia se era por ela ou pelo bebe.
Estranhamente, ele nunca teve essa preocupação. Nem mesmo perguntou se ela tinha algum método contraceptivo.
Olavo se encolheu com uma rajada de vento mais forte, nem o pijama de flanela do Snoopy o impediu de ficar com frio. Lucila deu um ligeiro tapinha em seu ombro, fazendo ele se virar para ela.
- Por que você a chama de princesa? – perguntou Olavo com clara curiosidade, quando se afastaram.
- Porque ela é minha princesa desde de que eu a conheci.
Ele respondeu olhando diretamente para ela, como se o significado dessas palavras fossem além de tudo o que saiam de sua boca. Lucila engoliu em seco, e desviou os olhos.
“Vamos entrar. Está gelado aqui fora, e você ainda está reforçando sua imunidade com as vitaminas. Não quero que fique doente.”
Vitório traduziu rapidamente, e pegou a mão de Olavo.
- Vamos. Hoje vai ter nós dois para te pôr para dormir. – ele completou.
Caminhando para dentro, ele a puxou pelo pescoço e roubou um beijo rápido que a deixou sem ar. Olavo entre eles, nem percebeu, falando das estrelas e constelações que avistou.
- A Hidra é com certeza uma das maiores que vimos, mas a estrela Sirius de Cão Maior é mais surpreendente...
Os pensamentos dela estavam longe das constelações. Na verdade, não havia nada nela que não estivesse totalmente voltado para o ardor em seus lábios e o gosto de Vitório impregnando sua língua, como uma promessa do que viria depois.
Para piorar seu estado, o olhar de canto cheio de malícia, fez algo entre suas pernas pulsar.
“Ai meu Deus! O que eu faço com esse homem?!”

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