Carl não abriu a boca, e nem se moveu.
Seu corpo ficou rígido sob o toque de Delphine, como um homem travando uma guerra dentro de si mesmo. O calor dos lábios dela ainda estava fresco nos seus, mas sua mente se recusava a reagir.
Delphine percebeu imediatamente.
Ela se afastou devagar e o encarou, o choque estampado no rosto. Aquele não era o Carl que ela conhecia. O Carl que ela sempre controlou, o Carl que faria qualquer coisa só para olhar nos olhos dela, só para tocar sua pele… aquele Carl estaria pulando de alegria agora. Mas ele estava diferente.
Ela sabia que o usava. E também sabia que ele sempre soube disso.
Ainda assim, por pior que ela o tratasse antes, ele nunca tinha resistido assim. Nunca a afastou com silêncio.
A rejeição a irritou.
Ela sabia que ele tinha todo o direito de estar com raiva. Mas agora que o destino finalmente revelou a verdadeira identidade dele, agora que ele era o verdadeiro herdeiro do império Wyndham, não havia a menor chance de ela deixá-lo escapar.
Ela já tinha perdido Gabriel para Isla, não perderia Carl para ninguém. Nem agora. Nem nunca.
Se tivesse que destruir alguém para ficar com ele… ela faria.
Carl olhou para o rosto dela e sentiu o peito apertar. Sabia exatamente que tipo de mulher ela era. Tóxica. Perigosa. Egoísta.
Mas também sabia de uma coisa: se quisesse que o plano funcionasse, precisava interpretar seu papel perfeitamente.
Devagar, ele ergueu o olhar para ela.
— Você fugiu. — Disse com calma, mas os olhos queimando de ressentimento.
— No momento em que sentiu perigo, você sumiu.
O olhar dele desceu para as mãos dela sobre seus ombros, e a irritação voltou com força.
— Você me usou. — Continuou.
— Esse tempo todo, você me usou pra destruir o casamento do meu irmão.
Ele soltou uma risada amarga.
— Você nunca se importou comigo, Delphine. Você sabia o quanto eu te amava. Sabia que eu faria qualquer coisa por você. E mesmo assim… você queria o meu irmão.
O maxilar dele se contraiu.
— Agora que o Gabriel saiu do caminho, agora que a família me escolheu… você aparece do nada.
Ele a encarou diretamente.
— Por que você está aqui?
O sorriso de Delphine vacilou por um segundo, mas ela se recompôs rápido. Não tinha sobrevivido até ali desistindo fácil.
Ela suavizou a expressão.
A mão dela subiu até o rosto dele, os dedos acariciando sua pele com aparente carinho.
— Me desculpa. — Disse baixinho.
— Me desculpa por tudo que eu fiz com você.
A voz dela baixou ainda mais.
— Mas a verdade é que… eu te amo. Eu me importo com você. Você sabe disso.
Carl soltou um som de desprezo e virou o rosto, nem pra mentir ela servia direito.
Amor? Aquela palavra soava como um insulto saindo da boca dela.
Ele fechou os olhos por alguns segundos e respirou fundo, tentando controlar a raiva que queimava dentro dele para conseguir continuar o jogo.
Então, de repente, ele segurou o rosto dela e a beijou. O beijo não foi suave, foi duro, áspero. Não havia amor ali. Nem desejo.
Era um beijo de punição.
Delphine arfou, surpresa, mas não resistiu. A brutalidade sempre a excitou. Ela envolveu os braços no pescoço dele e correspondeu com intensidade.
Só se afastou quando o ar faltou.
Seus lábios estavam inchados. A respiração, irregular.
Carl a encarou por um momento, então falou:
— Se você realmente me ama como disse… — ele fez uma breve pausa, fechando e abrindo os olhos — case comigo.
Delphine congelou.
O corpo inteiro dela ficou imóvel. Os olhos se arregalaram enquanto tentava processar o que tinha acabado de ouvir.
Um milagre.
— Tenho trabalho demais hoje.
Ela fez um leve bico.
— Deixa eu terminar o trabalho. — Carl continuou.
— Amanhã vamos comprar seu anel de noivado. O que acha?
O rosto de Delphine se iluminou como se tivesse ganhado o mundo.
Ela assentiu animada.
— Perfeito.
A felicidade transbordava dela enquanto agradecia ao universo em silêncio. No fundo, comemorava o desaparecimento de Isla… e a queda de Gabriel.
Ela nunca amou Gabriel de verdade, amava o poder.
E agora… aquele poder pertencia a Carl.
— E mais uma coisa. — Carl disse de repente.
Ela o olhou rapidamente.
— Depois do anel, quero te apresentar oficialmente à minha família. Principalmente à minha mãe.
Os olhos de Delphine brilharam de empolgação. Não conseguia acreditar que tudo estava acontecendo tão rápido.
Ela se inclinou e deu um beijo rápido nos lábios dele.
— Obrigada, muito obrigada. — Sussurrou.
Ela fungou, dramática.
— Eu também adoraria te apresentar à minha família. Principalmente ao meu avô. Ele vai ficar muito feliz em te conhecer.
Carl sorriu com calma.
Perfeito. Tudo estava se encaixando.
A segunda etapa já estava em andamento, agora, ele só precisava de tempo, tempo pra fazer tudo parecer real. E ele estava pronto pra interpretar seu papel até o fim.

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