— Mamãe — continuou Aurelian suavemente, com os olhos ainda fixos na televisão —, por que você sempre teve medo de mim?
A pergunta atingiu Isla como um tapa repentino. Ela congelou.
A respiração enganchou em sua garganta, e por um momento, ela esqueceu como falar. Virou-se lentamente para olhar para o filho, olhar para ele de verdade. O rosto dele estava calmo, relaxado, e não havia acusação em sua voz, nem raiva. Apenas uma pergunta simples, feita como se ele já soubesse a resposta.
— O que te fez pensar isso? — Ela finalmente perguntou, com a voz cuidadosa, quase cautelosa.
Aurelian deu de ombros levemente, como se a resposta fosse óbvia e não precisasse de explicação.
— É como eu me sinto. — Disse ele simplesmente.
— Por exemplo, você não me dá bronca da mesma forma que dá no Sebastian e na Elara. Você me trata de forma diferente. Por quê?
O coração de Isla apertou. Ela não conseguiu responder imediatamente.
"Será que eu fui tão distante assim? Meu medo transpareceu tanto que até uma criança pôde sentir?"
Ela achava que estava sendo cuidadosa, gentil ou mais protetora. Mas agora, ouvindo-o, perguntava-se se na verdade estava o afastando.
Ela engoliu em seco e forçou um pequeno sorriso.
— Talvez porque você não seja tão estabanado quanto eles. — Respondeu finalmente.
Aurelian virou-se para ela e sorriu, mas havia diversão no olhar, como se achasse a resposta dela engraçada.
— Eu nunca sou estabanado, mamãe. — Disse ele com calma.
— Eu nunca serei. Isso é um fato.
A maneira como ele falava. A confiança e a certeza.
Sua voz era suave e firme, suas palavras escolhidas com cuidado, muito além de sua idade. E mais uma vez, Isla entendeu por que havia construído sem saber uma distância entre eles. Ele não agia como uma criança. Nunca agiu.
Mas desta vez, ela não sentiu necessidade de se afastar. Ela expirou lentamente.
— Sinto muito se te fiz sentir assim, Lian. — Disse ela gentilmente. — E não quero que você pense em momento algum que eu tenho medo de você.
Aurelian olhou para ela por um longo tempo. Então sorriu levemente e assentiu, aceitando as palavras dela sem questionar. Houve uma pausa. Isla lembrou-se do que a perturbara mais cedo.
— Mais cedo, perto da piscina — disse ela com cautela —, o que você estava dizendo aos homens da segurança? E por que eles estavam se curvando para você?
Aurelian sorriu novamente. Ele estava calmo e imperturbável.
— Eu apenas dei a eles dicas de segurança, mamãe. — Respondeu ele.
O coração de Isla saltou, mas ela escondeu bem o choque.
— Eles seguem táticas antigas. — Continuou ele, dando de ombros.
— Precisam de mais treinamento. Só isso.
Ele desviou o olhar, como se o assunto fosse simples demais para continuar discutindo. Então acrescentou casualmente:
— E sobre o curvamento...
Ele balançou a cabeça levemente e sorriu.
— Eu não pedi que fizessem isso. Acho que eles reconheceram o mestre deles. Só isso, mamãe.
Isla ficou rígida.
— O... mestre deles? — Ela repetiu lentamente.
Ela não estava mais com medo. Aquele era o filho dela. A criança que ela carregou, a criança que ela deu à luz. O medo não tinha mais lugar dentro dela. Estava começando a entendê-lo e a não compará-lo mais aos outros.
Quando ele não respondeu, ela falou novamente:
— Aurelian, eu te fiz uma pergunta.
As duas crianças mais novas continuaram brincando, rindo baixinho. Mas Isla permaneceu congelada. Aquelas palavras pesavam em seu peito.
Responsabilidade? Que responsabilidade uma criança poderia ter?
Ainda assim, ela se forçou a se acalmar.
"Está tudo bem, só preciso continuar observando e guiando ele. Corrigi-lo quando necessário." Disse a si mesma.
***
Naquela noite, Isla andou silenciosamente pela casa, verificando todos antes de ir dormir.
Primeiro, entrou no quarto de Sebastian. Ele estava esparramado na cama, profundamente adormecido, com metade do cobertor no chão. Isla sorriu suavemente e puxou o cobertor sobre ele antes de sair. Em seguida, foi ao quarto de Elara.
A garotinha dormia pesado, com a televisão ainda ligada. Um desenho passava silenciosamente ao fundo. Isla sentou-se na beirada da cama e inclinou-se, dando um beijo longo e gentil na bochecha de Elara. Elara deu uma risadinha suave durante o sono. Isla sorriu, observando o peitinho subir e descer. Puxou o cobertor para mais perto da filha, desligou a tv e guardou o controle. Saiu do quarto fechando a porta com um clique suave.
O último quarto era o de Aurelian. Ela abriu a porta e olhou para dentro. Ele dormia em paz, deitado ordenadamente. O cobertor estava perfeitamente arrumado, a televisão desligada e o quarto impecável. Como sempre. Isla assentiu satisfeita, embora não soubesse por que ainda sentia necessidade de checá-lo mais do que aos outros.
Afinal, ele era apenas uma criança.
Ela fechou a porta e voltou para seu quarto. Finalmente, deitou-se na cama. O estresse do dia pesou em seu corpo. Ela se espreguiçou, bocejou, apoiou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos. O sono a levou. Ou assim ela pensou.
De repente, um barulho estranho ecoou pela casa silenciosa. Os olhos de Isla se abriram abruptamente. Seu coração começou a disparar. Ela ouviu atentamente. O som veio de novo. Vinha do lado da casa onde ficavam os quartos das crianças.
O medo correu por suas veias. Ela chutou o cobertor e pulou da cama sem nem calçar os chinelos. Descalça, correu pelo corredor. Quanto mais se aproximava, mais claro o som se tornava. E então ela percebeu: vinha do quarto de Aurelian.
Seu peito apertou. Lentamente, com cuidado, ela empurrou a porta. O que viu a congelou até os ossos.
No chão estava Dora, uma das novas empregadas domésticas que haviam acabado de contratar. Ela gemia alto de dor. Suas pernas estavam presas em um dispositivo de metal, e o sangue já manchava o chão abaixo dela.
O fôlego de Isla falhou. Então, ela viu Aurelian. Ele estava de pé em cima de sua cama. Em suas mãos, havia uma arma de brinquedo. Os olhos de Isla se arregalaram de horror.
— O que está acontecendo aqui? — Ela gritou.

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