(Ponto de Vista de Elara)
Ben não estava errado. Melanie não estava brava comigo… Além disso, aproveitou a primeira oportunidade para provar sua lealdade, assumindo pessoalmente o cuidado com as refeições do grupo. Assim que entrou em ação, não houve mais como parar aquele furacão. Dei a ela total liberdade para escolher cinco ômegas que a ajudariam na tarefa, bem como para pegar tudo o que fosse necessário para o grupo.
Algumas horas depois da nossa reunião, ouvimos de Jax e Dev que todos os membros do grupo já estavam contabilizados e acomodados na clareira perto da casa da alcateia. Então, enviei os dois para instruir o restante dos guerreiros e, ao mesmo tempo, prepará-los para aprender novos cheiros, de modo que pudéssemos diferenciar aliados de inimigos.
— Agora só falta avisar a alcateia que eu trouxe bruxas para dentro da nossa casa e que todo mundo vai ter que se comportar. — Resmunguei mais para mim mesma, embora, como sempre, Ben estivesse por perto o suficiente para ouvir.
— É tão ruim assim?
Fiquei olhando pra ele por um instante, até que a ficha caiu. Ele nunca tinha entrado na alcateia comigo antes… Não estava ali quando levei aquele sermão absurdo depois que o Jeff envenenou a cabeça dos comerciantes com os boatos dele. Aquilo ia bater nele como um choque de realidade…
A minha alcateia sempre teve um pé atrás comigo assumindo o lugar do meu pai e, agora que ele não estava mais aqui para me proteger do pior, comecei a entender que a minha situação era ainda mais complicada do que eu mesma imaginava. Ele podia muito bem decidir me rejeitar e ir embora. “Quem ia querer uma companheira que não era aceita pela própria alcateia?” Ainda mais sendo a Alfa que ninguém suportava. A que não conseguia nem impor respeito direito, tudo porque me faltava uma carninha a mais entre as pernas.
Diante de toda a situação, revirei os olhos.
— Por que você não vem ver com os próprios olhos?
Nem dei chance para ele responder. Ou ele vinha atrás de mim, ou não. Enquanto caminhava pela casa, uma sensação estranha me atravessou. Nunca gostei muito daquele lugar enorme e sempre achei tudo meio exagerado, como se alguém tivesse se esforçado demais para parecer importante, mesmo sendo uma alcateia relativamente pequena. Tínhamos entre trezentos e quinhentos membros, dependendo da época, e a maioria estava ali tocando pequenos negócios familiares ou atuando como guerreiros. O restante saía para estudar fora e, de vez em quando, voltava quando decidia se aposentar.
Nunca houve motivo para termos uma casa da alcateia daquele tamanho. E até esse problema com intrusos e bruxas, eu nem lembrava a última vez que meu pai tinha recebido membros de outra alcateia.
— O quê? — Ouvi a voz do Ben atrás de mim e me sobressaltei. Nem tinha percebido que tinha parado, encarando a sala formal enorme à minha frente. — Está tudo bem? Jax, Dev?
Voltei ao vínculo e recomecei a andar.
— Não, está tudo bem. Eu só estava pensando em como essa casa é inútil. Por que meu pai nunca mudou isso ou se mudou daqui? — Girei no lugar, observando cada detalhe.
— Como assim? — Ben perguntou assim que terminei de me virar.
Passamos pela entrada do campo de treinamento e, nesse instante, outra lembrança me atingiu, da época em que o pessoal do Arco Lunar de Prata chegou pela primeira vez. Seguimos quase em silêncio. Ben fez algumas perguntas sobre as casas e sobre a história da alcateia enquanto avançávamos em direção ao centro da cidade, mas não ficou falando sem parar, o que tornava aquele silêncio ainda mais agradável.
A parte principal da cidade era formada por duas ruas paralelas, onde ficavam a maioria das lojas e restaurantes. Na extremidade mais distante da casa da alcateia, havia uma rua perpendicular ligando as duas, onde ficavam a escola e as casas de alguns anciãos da alcateia. Foi então que comecei a me perguntar se aquilo tinha sido planejado pelos anciãos ou pelos meus ancestrais.
Levei o Ben em todas as lojas, apresentando ele como o Beta novo da alcateia. Todo mundo já tinha sentido a presença dele quando eu trouxe ele pra dentro, mas ele tinha evitado usar tanto o vínculo mental quanto a aura com qualquer um, por puro respeito. “Ele realmente tinha sido bem treinado para liderar…” No entanto, não falei nada sobre ele ser meu companheiro, e ele também não corrigiu minhas apresentações.
No fim das contas, o recém-chegado foi bem tratado pela maioria da alcateia. Era estranho pra mim, porque meu pai nunca fez algo assim. Ele raramente deixava alguém entrar, e ainda morreu antes de me passar esse tipo de ensinamento. As fêmeas aceitavam de boa eu como Alfa, mas os machos… Esses sim me davam dor de cabeça.
Acabamos parando na loja do Deacon. Da última vez que o vi, ele tinha saído furioso do meu escritório, dizendo que eu não era Alfa dele e ainda me ameaçando para “consertar as coisas” antes que a alcateia começasse a ruir de verdade.
O sininho da porta soou no momento em que entramos. Sinceramente, se aquele cara não fosse tão idiota, esse lugar já teria virado o meu favorito há muito tempo. Ele e a companheira mantinham um tipo de boticário. Ela cuidava mais das coisas de cozinha e dos itens de cura. Apesar de ser curandeira, preferiu não trabalhar no hospital da alcateia, então ficou responsável por casos menores. Lobisomens não ficavam doentes como humanos, mas, quando algo acontecia, alguns tratamentos com ervas davam resultados melhores do que a medicina moderna. Isso ajudava o médico da alcateia a se concentrar no que realmente era grave. E, pelo jeito, ultimamente não faltava serviço pra ele.
— O que você quer? — Um rosnado surgiu atrás de mim.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Luna Indesejada do Alfa
E a história da Kennedy + Ryker nunca mais voltou.......
Parecis legal. Mas ai começa o autoritarismo e machismo e tudo perde a graça e fica mais do mesm9...