(Ponto de Vista de Greta)
A cada poucos minutos, meu olhar voltava para o Finn sem que eu conseguisse evitar, porque aqueles últimos dois dias tinham sido assustadores num nível que quase nada mais conseguia ser. No fim, minha loba estava certa: ele precisava de mim pra conseguir se curar e enfrentar o veneno no corpo. Então ela assumiu o controle e fez tudo no tempo dela, limpando cada ferimento com um cuidado quase obsessivo.
Eram mais de cem cortes e arranhões, portanto a gente precisou se transformar a cada doze horas pra ela poder lamber tudo e manter limpo, enquanto a saliva segurava o sangramento por um tempo… Mas depois aquilo virava um vazamento lento que exigia cuidado de novo. Quando finalmente fechamos todos os ferimentos, percebemos um problema maior: ele entrava em convulsão sempre que eu me afastava.
Diante disso, fiquei com medo até de sair para ir ao banheiro. A gente mal conseguiu comer, e eu tive que pingar água na boca dele pra manter ele hidratado.
— É só perguntar, Princesa. Para de ficar me encarando desse jeito. — O passo dele parecia firme, mas eu já o conhecia o suficiente para perceber cada pequena dificuldade nos movimentos.
— Você disse que não é desejado, que ninguém te quer ou confia em você além da Kennedy. Por que você acha isso? As pessoas que vieram com você e ainda estão na Lua Sombria te respeitam. Elas ainda te procuram quando precisam de ajuda. — "Será que ele realmente não enxergava isso?"
Ele soltou uma risada baixa.
— Elas só vêm até mim por hábito. Muitos nasceram como intrusos, então não entendem completamente a hierarquia de uma alcateia, o que precisam ou não de permissão para fazer. Antes da Amy e do Claude, todo mundo ia e voltava quando queria, sem questionamento. Cada um cuidava da própria vida, e a gente podia arrumar as coisas e ir embora a qualquer momento. Nem dava pra saber direito onde um território terminava e outro começava, principalmente porque tem terra largada sem dono muito além do que você imagina.
Ele puxou um suspiro profundo, antes de continuar:
— Faz muito tempo que eu não tenho um posto ou um lugar ao qual pertença. Mal lembro da minha alcateia. Sei que tenho família por aí em algum lugar, mas não faço ideia de quem são ou onde estão. Eu fiquei o mais perto possível depois do ataque, mas ninguém veio. Ninguém nunca me procurou. Quando a vovó me encontrou vagando pela floresta, ela me acolheu e garantiu que eu comesse junto com as outras crianças. Ela não mimava a gente, nem tentava substituir os pais que perdemos. A gente era livre para ir embora quando quisesse, mas, ao mesmo tempo, ela fez questão de que soubéssemos nos virar, lutar e sobreviver por conta própria. Ela nunca tirou a nossa escolha.
— Isso ainda não explica por que você acha que não é desejado ou que não é um líder.
— A gente sempre foi livre pra ir embora, e alguns foram. Quando alguém saía e não voltava, a gente simplesmente parava de falar sobre essa pessoa. Era como se nunca tivesse existido. Era uma regra não dita. Saber que você pode ser facilmente esquecido ou substituído, e ver isso acontecendo o tempo todo, mexe com você. — Com o olhar perdido na floresta, ele assumiu aquela expressão que eu conhecia bem… Um jeito de se fechar e manter qualquer um longe.
— Isso não muda o fato de que você ainda é um líder. — Insisti, mesmo sem entender direito por que queria tanto que ele enxergasse isso. Ele não parecia querer um título, mas havia algo no jeito como os olhos dele brilhavam quando falava dos intrusos que cuidava. E sabia que ele se importava, caso contrário, não teria suportado os últimos anos sob a Amy e o Claude. No fim, ele devia ter aguentado muito mais do que eles imaginavam.
— Disseram pra eles me seguirem. A gente era jovem, e, com um vínculo que eu nem entendia, ficou fácil para o Claude manipular tudo. Eu e o Sammy fomos dois dos poucos que não tentavam enganar ninguém, mas o Claude sabia exatamente o que dizer pra nos fazer agir. E, quando as ordens vinham da gente, eram seguidas com mais facilidade do que quando vinham de estranhos. A gente só queria manter todo mundo alimentado e seguro. Se hoje me veem como líder, é porque não conhecem outra coisa. — Ele deu de ombros e acelerou o passo, claramente tentando encerrar o assunto.
— O que te faz achar que você não é desejado? — Corri para acompanhá-lo.
— Ah, sério mesmo? — Ele parou de repente, e eu bati no ombro dele. — Você, de todas as pessoas, não tem o direito de me perguntar isso.
Ele estava tão perto que consegui ver os tons de azul nos olhos dele, e a intensidade me fez engolir em seco.
— Ué, a lua de mel acabou?
— Liam, eu vou te dar um soco tão forte no saco que você vai precisar de perícia pra achar o estrago.
— Então vou considerar isso um "sim". — Ele riu. — Ele não fez o que você esperava? — Mexeu as sobrancelhas de um jeito provocativo.
— Eu vou misturar novocaína no seu lubrificante. — Ri ao ver a cara dele. — Devo avisar algum namorado, pra ele não estranhar a sua falta de reação? — Encarei ele com desconfiança.
— Não no momento, mas anotado. — Ele sorriu. — O Alfa quer trocar uma ideia com você antes de você ir. A gente acredita que vocês dois já deram um jeito nos intrusos, então não deve rolar mais problema, mas ele quer entender melhor com quem e com o que a gente está lidando antes de vocês partirem.
Passei um resumo rápido do que encontramos e do que esperávamos deles agora que sabíamos que o Finn conhecia os intrusos e que a Lua Sombria podia voltar a ser alvo. Quando terminei, fui procurar o Finn e encontrei ele com o Grant, conversando e rindo de alguma coisa, e, sem conseguir evitar, um sorriso surgiu junto com uma sensação estranha no estômago ao ver a expressão dele.
No entanto, balancei a cabeça, afastando o pensamento. Afinal, não fazia sentido eu reparar em como ele ficava bonito rindo com um dos nossos guerreiros. Até porque não queria um companheiro, nunca quis, ainda mais depois de tudo que vivi antes de o Ryker cruzar o meu caminho.
— Ei, Princesa, você vem ou não?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Luna Indesejada do Alfa
E a história da Kennedy + Ryker nunca mais voltou.......
Parecis legal. Mas ai começa o autoritarismo e machismo e tudo perde a graça e fica mais do mesm9...