O dia na mansão Veronese amanheceu com uma eletricidade quase palpável. Enquanto o sol escalava o céu, Mateus Curie — o homem que carregou o peso de um império Veronese nas costas por um ano inteiro — atravessava o hall de entrada liderando um pequeno exército de assessores. Seus olhos denunciavam a urgência de quem não via a hora de entregar as responsabilidades do Grupo Amplitude para Alessandro.
— O Sr. Alessandro ainda não acordou — avisou a tia Maria, bloqueando o caminho com seu habitual tom protetor.
Mateus soltou um suspiro pesado, lutando para não deixar a frustração transparecer.
— Tudo bem, deixe-o descansar. Vamos adiantar os detalhes técnicos por aqui até que o "belo adormecido" resolva despertar.
Por trás da postura impecável de CEO, Mateus estava exausto. Quando Alessandro partiu para a missão contra Vanessa, despejou o fardo da empresa sobre ele sem olhar para trás. O custo pessoal fora altíssimo: viagens canceladas, negócios perdidos e, o golpe mais duro, a ausência no nascimento de sua filha. Embora Maisa e a pequena estivessem bem, o arrependimento era uma sombra constante. Ele havia sido o líder que o Grupo Veronese precisava, mas ao preço de sacrificar o tempo com a esposa e a filha.
Agora que o dono do problema estava de volta, Mateus tinha uma meta clara: demitir-se antes do pôr do sol.
A manhã se arrastou. O meio-dia passou entre pilhas de documentos e cafés gelados. Tio Angelo e Tia Maria serviram o almoço em um silêncio reverencial, mas os aposentos de Alessandro e Luana permaneciam como uma fortaleza intransponível. Quando Mateus, perdendo a paciência, fez menção de subir as escadas para arrancar o cunhado da cama, Tia Maria postou-se no primeiro degrau como um escudo humano, proibindo qualquer interrupção.
Foi apenas às 14h30 que Alessandro finalmente deu as caras. Ele surgiu no topo da escada impecável, com o semblante tão descansado que nem parecia ter passado um ano infiltrado em uma organização criminosa. Sentou-se à mesa, tomou um gole de café com uma lentidão torturante e abriu o jornal de finanças.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Alessandro, sem sequer desviar os olhos das notícias.
Mateus sentiu um tique nervoso no olho.
— "Cunhado", você dormiu o dia inteiro! Eu estou plantado aqui desde o amanhecer esperando você honrar sua volta e assumir seu posto.
— Se houver algo pendente, resolva por telefone. Não precisava ter vindo pessoalmente — rebateu Alessandro, com uma frieza exasperante.
— Ah, mas este assunto é de extrema importância — Mateus retrucou, um sorriso desafiador brotando nos lábios.
— E o que seria?
— Eu me demito! — disparou Mateus. Com um gesto dramático, ele "esmagou" os selos da empresa e os documentos oficiais sobre a mesa, bem diante do cunhado. — Vá procurar outro substituto, porque o seu tempo de folga acabou!
Alessandro olhou para os selos com total indiferença. Com a ponta dos dedos, empurrou-os de volta para Mateus, que recuou como se estivesse diante de uma brasa ardente.
— Eu não quero mais isso! Quero minha esposa, minha filha e minha paz — desabafou Mateus, a voz subindo de tom. — Com as ações que eu tenho, posso viver no luxo para o resto da vida. Não faz o menor sentido continuar me matando por acionistas. Eu fui um estúpido por ter aceitado isso um ano atrás!
Alessandro esboçou um sorriso de canto, quase imperceptível.
— Acho que você está com dificuldade de se desapegar do poder, Mateus...

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