VICTOR BALTIMOR.
Tudo ficou escuro. Foi como se alguém tivesse apagado todas as luzes de uma vez, arrancando de mim qualquer noção de tempo, espaço ou consciência. Primeiro veio a escuridão, densa e sufocante, depois o vazio. Meu corpo pareceu perder o peso, minha mente afundou em um silêncio profundo, e eu simplesmente deixei de sentir.
Não havia dor, nem medo, não havia nada. Então, em algum ponto daquele nada, uma claridade começou a surgir.
Abri os olhos devagar, como se minhas pálpebras pesassem toneladas, e a primeira coisa que senti foi o calor agradável do sol tocando meu rosto. A luz dourada me envolveu com suavidade, aquecendo minha pele, enquanto uma brisa fresca passou por mim, trazendo o perfume delicado das flores.
Pisquei algumas vezes, confuso. Eu estava no jardim da minha casa. Meu jardim, que mandei construir anos atrás, com o intuito de um dia poder aproveitar em família.
Eu havia mandado projetar, com cada detalhe que fosse apreciado pela esposa que um dia eu teria — as roseiras brancas, as lavandas espalhadas pelos canteiros, o pequeno caminho de pedras claras levando até o banco de ferro sob a sombra da árvore. Tudo estava exatamente como deveria ser.
É, eu era romântico antes de Charlotte me arrancar isso, com sua obsessão doentia.
E era curioso, como eu nunca tinha tempo para aproveitar minha própria casa. Sempre ocupado, mergulhado em compromissos, problemas, reuniões, decisões. O jardim existia, mas eu jamais vinha até ele. Era como se aquela parte da casa pertencesse a uma vida que nunca foi realmente minha.
Ainda assim, ali, sob aquele céu absurdamente azul, tudo parecia tão calmo… tão perfeito.
Fiquei observando a dança suave das folhas ao vento, distraído pelo canto distante dos pássaros, pelo brilho do sol atravessando os galhos, pela sensação estranha de paz preenchendo meu peito. Até que ouvi uma voz.
— Aí está você. Nós te procuramos pela casa toda.
Uma voz feminina, doce e familiar. Tão profundamente conhecida que meu coração reagiu antes mesmo que minha mente pudesse processar.
Sorri automaticamente e virei o rosto na direção da voz. E então a vi. Meu sorriso se ampliou de um jeito espontâneo, verdadeiro, cheio de uma felicidade tão pura que quase doeu.
Elisa.
Ela vinha em minha direção com passos tranquilos, os cabelos balançando levemente com o vento, um sorriso suave nos lábios e os olhos brilhando de carinho. Em um dos braços, carregava Melissa, nossa pequena Mel, aconchegada contra seu peito.
E Elisa estava grávida. Minha respiração falhou.
Por um instante, fiquei apenas olhando, absorvendo a imagem diante de mim como se temesse que ela desaparecesse. A barriga arredondada se destacava sob o vestido leve, iluminada pelo sol, e a visão da minha família reunida diante de mim aqueceu algo profundo dentro do meu peito.
Elisa só balançou a cabeça e revirou os olhos com o meu comentário. Eu estava rezando para ter dois meninos. Menos preocupações com os conquistadores baratos. Levantei-me devagar e estendi os braços para Melissa.
— Vem com o papai, minha princesa.
Mel soltou um som animado, esticando os bracinhos na minha direção. Assim que a peguei no colo, senti o corpinho pequeno e quente se acomodar contra mim, e uma felicidade avassaladora tomou conta do meu peito.
Beijei suas bochechas repetidas vezes.
— Minha menina linda… minha princesinha… que saudade do seu cheirinho.
Melissa soltou vários risinhos de bebê, aqueles sons leves, puros e cristalinos que pareciam feitos para curar qualquer dor do mundo. E aquilo me deixou absurdamente feliz.
Aquele som e momento. Aquela paz. Por um segundo, tive a sensação de que finalmente estava exatamente onde deveria estar. Era isso. Essa era a minha vida. Minha mulher grávida, minha filha rindo nos meus braços, meus filhos a caminho. Nada mais importava. O mundo político, as campanhas, as responsabilidades — tudo parecia distante e insignificante comparado a esse momento.
Mas minha alegria durou pouco.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A OBSESSÃO DO PRIMEIRO-MINISTRO PELA BABÁ INSOLENTE.