VICTOR BALTIMOR.
Elisa havia me colocado contra a parede. Ela queria conversar, e não havia como fugir. Levei Elisa para longe da sala de espera quase por instinto. Eu precisava tirá-la dali. Precisava falar sem a presença da minha mãe, de Átila, de médicos passando, de olhares curiosos. Precisava de controle — e aquele hospital era o último lugar onde eu o tinha.
O diretor do hospital havia cedido o escritório para termos aquela conversa, claro, eu era o dono. Fechei a porta atrás de nós com mais força do que pretendia. O clique seco ecoou no ambiente silencioso.
Elisa permaneceu de pé, próxima à janela, com os braços cruzados junto ao corpo. Postura defensiva.
— Pode falar — disse ela, sem rodeios. — Estou esperando.
Coloquei as mãos no bolso da calça, sentindo o peso de tudo cair de uma vez sobre meus ombros. Eu estava exausto. Física e emocionalmente. Minha filha está internada. Afonso farejando e espreitando minha vida pessoal. Elisa está prestes a sair da minha casa. Da minha vida.
— Eu não aceito sua demissão — falei, direto, fugindo do assunto que nos trouxe aqui. Ainda não estou pronto para revelar meus segredos.
Ela finalmente se virou para mim, os olhos verdes faiscando.
— Você não aceita? — perguntou, com deboche.
— Não — retruquei, firme.
Ela soltou uma risada curta, sem humor.
— Você não manda em mim, e não é sua decisão.
— Sei que não — respondi, aproximando-me um passo. — Mas preciso que fique.
— Precisa? — Ela arqueou a sobrancelha. — Ou quer?
A pergunta me atingiu mais forte do que deveria. Porque a verdade era desconfortável.
— As duas coisas — admiti, com a voz baixa. — A Melissa precisa de você. Ela está internada e precisará de você junto dela para se recuperar. E eu… — pausei, buscando as palavras certas — errei com você. Fui injusto. Cruel. E não posso perder a única pessoa que esteve ao lado da minha filha quando ela precisou.
Ela me encarou por longos segundos. Vi a luta ali. A mágoa ainda viva. O orgulho ferido. Mas também vi algo mais profundo: o vínculo com Melissa.
— Você me acusou de quase matar sua filha — disse ela, num fio de voz. — Isso não se apaga com um pedido. E o senhor só não quer perder a babá da sua filha, não é mesmo?
— Eu sei que só um pedido não é suficiente — respondi. — Mas posso tentar reparar.
— Como? — questionou. — Com dinheiro?
— Sim, por que não? — falei, sem hesitar. Ela me olhou com raiva. Acho que oferecer dinheiro não foi uma boa. Pense rápido. — E com respeito, e com o que você quiser e precisar.
Ela respirou fundo, desviando o olhar para a janela, como se estivesse tentando não explodir. O silêncio se alongou. Eu sentia o coração bater forte demais para alguém acostumado a negociações frias e discursos calculados.
— Eu não posso prometer que tudo será fácil — continuei. — Mas prometo que você nunca mais será desrespeitada. Nem por mim, nem por ninguém naquela casa.
Tentei amenizar as coisas, para não parecer insensível demais. Ela riu novamente, dessa vez mais amarga.
— Você promete muitas coisas com facilidade, senhor primeiro-ministro.
De novo aquele tom de desrespeito dela. Isso me irrita, mas me controlei. Tenho que convencê-la a ficar.
— Eu sei — concordei. — Mas sempre cumpro todas as minhas promessas. Mas isso… — toquei o peito — isso não é política.

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