ELISA RIVER.
Ele me encarou por longos segundos. Vi o conflito ali. A hesitação. O peso de algo muito maior do que eu imaginava.
— Ninguém sabe que a Melissa é minha filha — disse, por fim, com a voz mais baixa, como se fosse difícil revelar em voz alta. Senti o ar sair dos meus pulmões.
— Como é?
— Ninguém — repetiu. — Além das pessoas que trabalham na minha casa. Minha mãe, Pablo e você.
— Nem sua família? — perguntei, incrédula.
— Nem meu irmão. Nem a esposa dele, nem minha sobrinha. Ninguém.
O choque me paralisou por alguns segundos.
— Você… você está dizendo que esconde a própria filha do mundo? Mas, por quê?
— Estou dizendo que preciso protegê-la — respondeu, seco.
— Porque tenho a impressão de que isso não é verdade? — rebati.
Ele fechou os olhos por um instante, como se aquela pergunta tivesse acertado precisamente.
— Elisa, você não entende…
— Então explique — insisti, a voz firme, embora meu coração estivesse acelerado. — Porque, até agora, tudo o que vejo é uma criança doente, frágil, e um pai que a trata como um segredo inconveniente e não dá a mínima para ela.
Ele respirou fundo, passando a mão pelo rosto.
— A Melissa não pode existir publicamente — disse, por fim. — Ela é minha filha com uma prostituta. A mãe dela surgiu grávida na porta da minha casa. Eu não acreditei que fosse minha, sempre me preveni. O exame de DNA deu positivo. Pensei em mandar abortar, mas minha mãe estava presente no dia em que ela apareceu. Ela foi contra. Queria o neto.
Engoli em seco, sentindo o estômago embrulhar.
— Fiz um acordo com a mãe da Melissa — continuou. — Ela continuaria a gravidez e, quando a criança nascesse, manteria minha filha longe de mim e receberia uma mesada generosa pelo resto da vida. Viveria muito bem. Mas a maldita abandonou a Melissa na minha casa… no mesmo dia em que eu e você transamos.
Arregalei os olhos, assustada com o que ele revelava. Fiquei sem palavras por um momento, tentando processar cada detalhe daquela crueldade.
— E daí? — perguntei, a voz saindo baixa, trêmula de indignação. — O que isso importa? Quem a gerou não muda nada. Ela é seu sangue.
— Isso é desumano — falei em seguida, sentindo a raiva subir. — Ela não é um erro. Não é um escândalo. É uma criança.
— Eu sei — respondeu, com uma dureza estranha. — Mas sou um homem público. Estou concorrendo ao terceiro mandato. Meu partido é conservador. Você tem ideia do que uma filha fora de um casamento, fruto de uma relação casual, pode causar? Melissa é uma bastarda, filha de uma garota de programa.
— Então é isso — murmurei, sentindo um nó se formar na garganta. — Política acima de tudo. Você não quer que saibam o quanto é canalha.
— Não é tão simples — rebateu, furioso. — E meça suas palavras, garota. Ainda sou seu chefe. Sou uma autoridade. Me respeite. - Apontou o dedo para mim.
— Elisa…
— Não — interrompi. — Não confunda isso com submissão. Eu não concordo com o que você faz. Acho covarde. Acho cruel. E, se fosse apenas por mim, eu iria embora agora.
As palavras saíram duras, honestas, do jeito que precisavam sair.
— Mas ela precisa de alguém que fique — continuei. — E eu não vou abandoná-la como todos fizeram.
Vi algo se quebrar no olhar dele. Culpa. Raiva. Medo. Tudo misturado. E não me importei. Agradeço a Deus, por Mel ser um bebê e não se lembrar dessa face da sua vida.
— Obrigado — disse ele, baixo.
— Não estou te ajudando — respondi. — Estou escolhendo a única pessoa inocente nessa história.
Virei-me para sair.
— Elisa — chamou, com a voz carregada.
Parei, mas não me virei. Saí, deixando-o sozinho com suas escolhas, seu poder e sua preciosa reputação.
Que merda de confusão fui me meter. Esse mundo da politica e do poder é podre.
E, enquanto caminhava pelo corredor, uma coisa ficou clara dentro de mim: eu tinha acabado de entrar em uma guerra que não era minha. Mas, por Melissa, eu lutaria e a defenderia, como se fosse minha filha.

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