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A Pele Que o CEO Não Esqueceu romance Capítulo 100

“Se meu filho morrer porque eu não quis entrar num carro, eu nunca vou me perdoar.” — (Anotação de R.)

[Continuando Flashbacks de Renata...]

... O que eu não vi foi a outra tela, em outro computador, talvez em outro andar: sistema cruzando nome, idade, ausência de pré-natal registrado, gestante em terceiro trimestre, sem convênio, sem endereço consistente.

Alguém, em algum lugar, recebendo um alerta discreto.

Um clique a mais. Um e-mail automático. Um telefonema curto:

“Achamos uma possível correspondência. Nome e data de nascimento batem com um dos prováveis. Grávida. Terceiro trimestre. Hospital X. Já saiu em direção à Alameda Santa Verena.”

Eu só soube depois. Naquele momento, eu descia a rampa da saída principal quase acreditando que tinha escapado mais uma vez.

...

O ar lá fora tinha mudado.

Não era mais o ar neutro de hospital. Era outro: denso, grudento, carregado de sol de fim de tarde e algo mais que eu não conseguia nomear. Perigo, talvez. Mas eu estava cansada demais para ouvir.

Apertei o envelope contra o peito como escudo e comecei a caminhar de volta. Contando quadras. Respirando devagar.

Uma.

A cada passo, falava baixo para meu bebê:

— A gente vai chegar em casa. Você vai mexer de novo. Eu vou me deitar do lado esquerdo, como o médico falou.

Duas.

— Você vai reclamar apertando aqui — toquei o ponto conhecido — e o mundo vai voltar a fazer sentido.

Só mais uma quadra.

Foi então que eu senti.

Não vi primeiro. Senti.

Aquela sensação na nuca que você não consegue explicar, mas que seu corpo reconhece antes da mente: alguém está olhando.

O sedã preto surgiu do nada.

Lustroso. Silencioso. Deslizando pela rua como predador que não precisa correr para alcançar a presa. Avançava devagar, muito devagar, no mesmo ritmo dos meus passos.

Acompanhando.

Fingi não notar. Mantive os olhos no horizonte, a respiração controlada, os pés seguindo em frente.

Paranoia, sussurrei para dentro. No mundo inteiro existem sedãs pretos, Renata. Nem tudo gira em torno de você.

Mas o coração não acreditou. Já batia alto demais, rápido demais, como animal que fareja armadilha.

O carro reduziu ainda mais.

Encostou no meio-fio alguns metros à minha frente. Motor ainda ligado. Ronronar baixo de fera esperando.

A porta traseira se abriu.

O som — metálico, preciso — cortou o ar como disparo de largada.

...

O homem que desceu não tinha nada de especial.

E isso era o mais assustador.

Roupa escura, postura ereta, rosto treinado para não dizer nada. Nenhuma expressão. Nenhuma emoção. Apenas eficiência.

Aproximou-se com passos medidos. Nem rápido, nem lento. O ritmo exato de quem sabe que a presa não tem para onde correr.

— Renata Vasconcelos?

Não foi pergunta. Foi confirmação. Como quem checa etiqueta em pacote antes de carregar.

Fiquei paralisada. Pés colados no asfalto. Envelope escorregando entre dedos suados.

Corre, gritou uma voz dentro de mim. CORRE AGORA.

Mas as pernas não obedeceram.

— O doutor pediu para a senhora voltar — continuou ele, e a cordialidade na voz era pior que ameaça explícita. — Encontrou uma alteraçãozinha no exame. Precisa repetir. Por garantia.

Minha boca secou.

— Ele... ele não falou nada disso. Eu saí há pouco de lá.

O homem sorriu.

Não foi sorriso. Foi máscara. Coisa ensaiada mil vezes na frente do espelho até parecer natural. Não alcançava os olhos. Não tinha calor. Não tinha nada.

— Às vezes o resultado sai segundos depois, senhora. — Tom paciente. De quem explica coisa simples para criança lenta. — É rapidinho. A gente leva, você repete o exame, volta.

Pausa calculada.

— A senhora quer mesmo arriscar alguma coisa com o bebê?

A frase me atingiu em cheio.

Não no orgulho. Não na lógica. No medo mais profundo.

E se ele estiver certo? E se houver algo errado? E se meu filho morrer porque eu fui paranoica demais para entrar num carro?

O homem viu a hesitação. Claro que viu. Era treinado para isso.

Abriu mais a porta. Exibiu o interior refrigerado como quem oferece oásis no deserto.

— Tem ar-condicionado. O hospital é aqui do lado. Posso ligar para a central, se quiser confirmar.

Pegou o celular. Digitou. Falou rápido com alguém do outro lado. Palavras que eu não consegui captar.

Eu conhecia o “por dentro” de muita coisa para acreditar.

Mas o que eu podia fazer? Pular do carro em movimento? Gritar? Para quem?

O cansaço pesava como chumbo. O medo se espalhava como veneno lento. E a barriga permanecia em silêncio — como se o bebê também soubesse. Como se estivesse se encolhendo junto comigo. Tentando desaparecer.

...

Quando o carro parou, eu já sabia.

Antes de olhar. Antes de ver. O corpo sabia.

Não era o hospital de vidro reluzente.

Era outro.

Clínica Santa Albina.

O nome atravessou minha mente como lâmina.

Mesmo tijolo bege desbotado. Mesma entrada de serviço escondida. Mesmo ar de lugar que não deveria existir.

O mesmo lugar onde me doparam para testar se eu estava “apta” e para me forçar a assinar o contrato Bellucci.

— Não... — A palavra escapou antes que eu pudesse contê-la. Minha mão voou para a maçaneta.

Dedos fecharam ao redor do meu antebraço. Firmes. Sem brutalidade aparente, mas impossíveis de quebrar.

— Já estamos aqui — disse o homem, e agora a máscara tinha caído um pouco. Por baixo, havia algo frio. Algo que não fingia mais. — Agora é melhor me acompanhar. Não é, dona Renata?

Não foi pergunta.

O carro entrou pela garagem lateral. Portão descendo atrás de nós com som de mordida de ferro.

Trancando.

Elevador sem número. Botão sem identificação. Subindo para andar que não existe em planta nenhuma.

Corredor encerado demais. Silencioso demais. Luz fluorescente fria demais.

Cheiro de desinfetante cobrindo cheiro de medo.

Ala fantasma.

Eu tinha traçado rota de fuga. Tinha planejado cada passo. Tinha sobrevivido ao porão, à Casa, a Aurélia.

E agora, sem saber, tinha caminhado de volta direto para as mãos do caçador.

Com meu filho ainda dentro de mim.

Presa de novo.

[continua...]

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