“Algumas mulheres constroem fortalezas com o silêncio. Mas basta um gesto inesperado para que uma muralha inteira se lembre que um dia foi pele.” — Diário de D.
Victoria entrou na sala de jantar. A madrasta de Theo — e, de certa forma, também dele agora — deslizou suavemente pelo cômodo, apoiando-se com cuidado na cadeira de rodas.
Seu olhar se fixou em Noah, e por um breve instante, ele percebeu algo diferente na expressão dela. Era uma mistura de curiosidade e um controle discreto. Apesar de sua aparência delicada, sua presença transmitia uma autoridade sutil, quase imperceptível.
— Theo, querido, como foi seu dia? — ela perguntou com uma voz suave, cheia de ternura.
Noah levantou os olhos e tentou manter a postura séria de Theo, mas não conseguiu evitar um sorriso de empatia ao notar a fragilidade aparente daquela mulher.
— Foi… tranquilo. — respondeu, escolhendo as palavras com cuidado.
— Por que a senhora não jantou com a gente? — ele perguntou com uma inocência genuína. Mas logo se arrependeu, pensando: "Ops, acho que Theo não perguntaria assim, dessa forma. Preciso me controlar mais."
Victoria sorriu, mas não respondeu. Apenas lançou um olhar para Enzo.
— Acho que seu pai já vai voltar ao trabalho, então teremos um tempinho para conversar. Você sabe que pode contar comigo para o que precisar, né, Theo? — disse, colocando uma mão suave no braço dele.
Noah concordou com a cabeça, mas algo na maneira como ela falava parecia ensaiado, falso mesmo.
Enzo, que parecia alheio à conversa dos dois, não percebeu nada de diferente.
No final do jantar, Enzo apenas comentou:
— Tenho alguns assuntos no escritório. Termine de comer e descanse — falou, antes de levantar-se e sair do cômodo sem olhar para trás.
— Se precisar de alguma coisa, fale com a governanta.
Ele se levantou e saiu.
Noah ficou ali, sozinho à mesa. Sem abraço. Sem palavras carinhosas. Sem nada.
Assim que a porta se fechou atrás dele, Victoria soltou um suspiro profundo e sua expressão mudou, como se uma sombra tivesse caído sobre seu rosto.
Assim que a porta se fechou atrás dele, Victoria soltou um suspiro profundo, e sua expressão mudou completamente, como se uma sombra tivesse caído sobre seu rosto. Aquele sorriso doce que iluminava seu rosto deu lugar a uma máscara de frieza, quase impenetrável — como uma porta de gelo que se fecha, isolando qualquer calor ou humanidade.
Noah sentiu um calafrio subir pela espinha, como se um vento frio tivesse invadido o ambiente, trazendo uma sensação de desconforto e desconfiança.
— Você está estranho hoje, Theo — ela disse, com os olhos se estreitando, como se tentasse desvendar algum mistério profundo.
— Desde quando você tem interesse em perguntar sobre o trabalho do seu pai ou se eu vou jantar ou não? — a resposta saiu numa voz cortante, quase uma acusação, como se Victoria estivesse prestes a descobrir um segredo que Noah tentava esconder.
Ele desviou o olhar, os pensamentos girando numa confusão enorme enquanto tentava desesperadamente encontrar uma resposta que não revelasse a farsa que tinha criado.
Mas, ao invés de recuar ou se justificar, Noah fez algo inesperado. Um sorriso suave e misterioso surgiu nos seus lábios, como se, no meio do caos, ele tivesse encontrado uma saída improvável.
— Você parece cansada — disse ele, com uma voz carregada de uma preocupação sincera, ou pelo menos assim parecia.
Havia algo na forma como ele falou, uma delicadeza quase tocante, que fazia as palavras parecerem um gesto de cuidado verdadeiro. Era como se, por um instante, ele tivesse deixado de lado qualquer máscara e se preocupado apenas com o bem-estar de Victoria, mesmo que aquilo fosse só mais uma jogada no seu jogo habilidoso.
— Precisa de alguma coisa? Posso ajudar em algo? — A frase foi dita com uma gentileza tão genuína que, por um momento, o peso no ar pareceu diminuir.
Victoria piscou, surpresa. Ninguém nunca tinha perguntado aquilo antes, e de um jeito tão diferente. Com certeza, não do Theo.
Por um momento, ela quis zombar da preocupação, como sempre fazia, mas algo no olhar de Noah a fez hesitar. Havia ali uma sinceridade genuína, uma pureza que a desarmava, como se ele pudesse enxergar além das camadas que ela cuidadosamente tinha construído ao longo dos anos.
Era um olhar que não julgava, apenas acolhia.
Incomodada com a vulnerabilidade que aquilo despertava nela, Victoria desviou o olhar, sentindo o coração acelerar descontroladamente. Não era só desconforto; era o peso de ser vista de verdade, de ter suas defesas cuidadosamente erguidas ameaçadas por alguém que parecia enxergar além delas.
A ideia de que Theo (Noah) pudesse atravessar suas barreiras a deixava inquieta, quase sem chão.
Quando finalmente falou, sua voz saiu fria, quase cortante — uma tentativa desesperada de esconder o turbilhão interno causado pelas palavras dele.
— Eu não preciso da sua piedade — disse Victoria, enquanto movia a cadeira de rodas para trás, num gesto sutil, mas cheio de significado. Parecia que, na distância física, ela buscava um refúgio para a conexão emocional que Noah, com tanta naturalidade, tinha criado.
Noah não recuou. Pelo contrário, seu sorriso ficou mais sincero, e o coração dele apertou de saudade da mãe. Ele sabia bem como era querer cuidar de alguém que se ama.
“Às vezes, o que desmonta uma armadura não é a força — é a gentileza.” ― Diário de D.
— Não é piedade — respondeu ele, com uma voz cheia de afeto verdadeiro.
— É só que... às vezes, quando gostamos de alguém, a gente quer cuidar...
As palavras de Noah ficaram no ar por um instante, como um eco distante, trazendo à tona lembranças de tudo o que a mãe costumava fazer por ele.
Victoria ficou em silêncio, desviando o olhar. Mas algo naquele jeito dele falar a atingiu de uma forma que ela não queria — ou talvez nem soubesse como admitir.
Por um instante, parecia que a armadura que ela usava pra se proteger tinha se trincado, deixando à mostra uma fresta da sua vulnerabilidade, cuidadosamente escondida até então.
Noah, atento, percebeu a mudança quase imperceptível na expressão dela.
Ele não falou nada. Não precisava.

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