Naquela noite, diante do espelho, Dayse encarou a mulher que a observava de volta.
Ainda havia resquícios de uma menina, traços de um passado que não combinava com sua nova realidade:
Os cabelos escorriam pelas costas como um rio calmo demais.
Os olhos, grandes demais, inocentes demais, agora estavam apagados, como janelas sem luz.
As lágrimas vieram. Silenciosas. Sem ruído. Não eram de dor.
Eram de vazio.
"Você pertence a um projeto."
O eco da frase de Luna reverberava dentro dela como um veredicto imutável.
Mas pela primeira vez, Dayse se perguntou: até onde um nome pode apagar uma pessoa?
O desejo de desaparecer a envolveu. Mas ela não sucumbiu.
Secou as lágrimas com precisão mecânica e apagou a luz.
Não dormiu. Apenas esperou, deitada, olhos abertos, encarando o teto como quem busca respostas nas sombras.
E quando o sol tingia a névoa da manhã, seu corpo já estava desperto. Não pelo alarme, mas pelo próprio corpo, que se recusava a descansar.
Dayse se levantou devagar, ignorando o café na bandeja. Conhecia o cardápio. Conhecia o padrão.
Abriu o guarda-roupa e, em vez do uniforme branco sem alma que Luna deixava pronto todos os dias, escolheu um vestido leve, discreto, mas indiscutivelmente feminino.
Roupa de gente.
Não de cobaia.
Às 7h01, como um relógio que jamais falha, a porta se abriu com precisão quase teatral. Luna atravessou o limiar sem hesitar, sem bater, como se o espaço já lhe pertencesse.
— Está pronta?
Dayse sorriu. Não um sorriso qualquer, mas daqueles que mudam o ar ao redor.
— Estou, mas hoje quero tomar café com calma antes dos exames. Preciso estar forte.
Luna franziu a testa.
— O cronograma diz que…
— Ele pode ser flexível ou preferem que eu passe mal durante a coleta de sangue? — Dayse rebateu, a voz firme, mas com um toque de desafio que parecia ecoar algo mais profundo, como se cada palavra fosse um escudo contra a vulnerabilidade que ela se recusava a mostrar.
Luna mediu. Calculou. Cedeu. Um pequeno deslize no controle.


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Pele Que o CEO Não Esqueceu