“A pior dor não vem da ausência. Vem de alguém que um dia teve você nas mãos... e não soube reconhecer." ― Diário de D.
...
Enzo Bellucci estava imerso em um nevoeiro interno — e não era aquele que se dissipa com café ou raciocínio lógico.
Era algo mais profundo, quase metafísico. Uma energia que preenchia o espaço ao redor dele, uma voz que parecia vir de um passado não vivido, mas que, de alguma forma, parecia conhecer cada detalhe.
Desde o momento em que Dayse Lancaster entrou na sala de reuniões, algo dentro dele se quebrou. Uma fissura silenciosa, mas que parecia irreversível.
Ele não conseguia tirá-la da cabeça, ficava preso num labirinto de pensamentos, sem entender exatamente por quê.
A presença dela o deixava desconcertado. Tinha algo naquela mulher que parecia tocar num nervo antigo — esquecido, mas ainda sensível. Ela era uma CEO competente, articulada, elegante, mas esse não era o motivo.
"Há ausências que doem mais do que t***s. Há partidas que nos ensinam a nunca mais voltar iguais." ― Diário de D.
Sentado na poltrona de couro escuro do seu escritório, ele olhava para o horizonte formado pelos arranha-céus da cidade, procurando ali as respostas que sua memória se recusava a revelar.
Mas não via a cidade. Tudo o que via... era ela.
O porte imponente e o olhar firme de quem não pedia passagem. Sua voz não era apenas um discurso; soava quase como uma sentença. Havia algo nela que não dava para explicar, uma presença tão forte que parecia transformar todo o ar ao redor.
Dayse Lancaster era como uma estrela densa demais para o próprio espaço: onde ela estava, tudo parecia se curvar aos seus pés.
O mais estranho? Ele não tinha certeza, mas sentia que já tinha visto aquela mulher antes — algo nela o desestabilizava de um jeito que ele não conseguia explicar.
“...”
E, de repente, como uma rachadura no dique do esquecimento, as lembranças começaram a surgir, vazando lentamente...
Aquela mulher do seu passado — a mãe do seu filho — também se chamava Dayse.
“Quando me apagaram, eu ainda acendia. E mesmo no escuro, nunca deixei de arder.” ― Diário de D.
Enzo franziu o cenho. Seu cérebro, acostumado a decifrar rostos, datas e resultados, agora parecia falhar.
O nome dela, da mãe do Theo, simplesmente escapava. Como isso era possível? Ele sabia que era Dayse, mas… Dayse de quê?
Inquieto, levantou-se e começou a caminhar de um lado pro outro. O nome insistia na sua cabeça: Dayse.
Mas o sobrenome… ele simplesmente não conseguia lembrar.
Enzo balançou a cabeça, como se pudesse afastar aquela sensação incômoda. Então, de repente, como um sussurro cortando o ruído do presente, surgiram sombras do passado.
Não eram lembranças completas. Apenas retalhos dispersos de um tempo que ele havia guardado bem escondido no peito.
A sombra de uma mulher... A antiga Dayse era como um sonho ruim que ele tinha dificuldade de lembrar — o vulto de alguém que ele preferiu esquecer.
Movido por uma inquietação que só aumentava, abriu o cofre e começou a procurar o antigo contrato de casamento.
E lá estava o nome: Dayse Antonelli.
Ver aquelas palavras no papel amarelado causou um impacto estranho, quase físico. Como se, ao encontrar aquele documento, ele tivesse destrancado uma porta que ficara fechada há muito tempo.
Agora ele sabia. Não era a mesma pessoa, não tinha mais dúvidas. Dayse Lancaster não tinha nada a ver com Dayse Antonelli. Ele estava impressionado porque as duas tinham o mesmo nome.
Mas, junto com essa resposta, vieram perguntas que ele ainda não tinha feito. O desconforto só crescia dentro dele, como algo difícil de ignorar.
As palavras impessoais naquele documento pareciam frias e distantes, como se tentassem apagar a essência daquele nome cheio de histórias, memórias e cicatrizes. Mas, para ele, não havia nada de impessoal naquilo:
“Dayse Antonelli, filha adotiva de Edmund Antonelli e Vivian Castellani Antonelli, passará a se chamar Dayse Antonelli Bellucci.”
Não era só a revelação, mas o peso que ela carregava. Como se, ao ler aquele nome, ele estivesse lidando com uma verdade que sempre existiu — uma verdade que ele nunca quis ver. Agora, ela estava ali, bem diante dele, e não tinha como fugir dela.
Como alguém que lhe dera um filho podia ter se tornado apenas um vazio, uma sombra sem rosto na tapeçaria das suas memórias?
Nada fazia sentido: durante os três meses em que estiveram juntos, os pais dela nunca tentaram qualquer tipo de contato — e, ao que tudo indicava, nem mesmo enquanto ela esteve sob o controle do avô.
Será que seu avô sabia de tudo aquilo?
Uma menina adotada, abandonada pela própria família, que carregaria o herdeiro que ele tanto desejava… era perfeita para os planos dele. Usá-la, pagar o suficiente e depois descartá-la — parecia exatamente o tipo de decisão que ele tomaria.
Enzo percebeu o óbvio e doloroso: não sabia quase nada sobre ela. E quanto mais refletia, mais fundo afundava ― no arrependimento, na angústia, na verdade que ele nunca quis enxergar.
Desde que ela deixou a mansão, ele nunca mais a viu.
Naquela época, ele não quis procurá-la nem tentar encontrá-la. Fechou portas, ergueu muros, acreditando que deixar tudo para trás e esquecer seria o suficiente.
“Fui embora sem fazer barulho. Não por covardia — por dignidade. Quem não me viu partindo, também não saberá quando eu voltar.” ― Diário de D.
Mas agora… Enzo se perguntava, com uma mistura de inquietação e um sussurro interno, se o que ele tinha enterrado não era só a memória dela, mas também uma parte de si mesmo:
E, dúvidas ecoavam como um sussurro incômodo dentro dele.
Será que, por trás do silêncio dela, existia o mesmo vazio que ele fingia não sentir? Será que, em alguma madrugada solitária, ela também desejou vê-lo, tocá-lo, ouvir sua voz?
E se, por baixo de toda a distância, ainda houvesse uma mulher que nunca teve a chance de dizer adeus — que chorou não apenas pelo filho que perdeu, mas por tudo o que nunca teve a chance de construir?
Era mais do que arrependimento. Era a constatação dolorosa de que talvez, durante todo esse tempo, ele não tenha sido o único a sofrer calado.
Ele se sentou de novo, mas dessa vez carregando um peso na alma ― como se algo dentro dele tivesse se quebrado.
A lembrança de Luna confessando a verdade veio como um golpe forte. Foi o seu avô quem impediu qualquer despedida.
Ele acordou de repente, ofegante.
“Eu a julguei sem escutar. Achei que soubesse tudo, mas só enxerguei o que o orgulho me permitiu. Pintei-a com as cores da minha decepção, sem perceber que talvez ela também tivesse sido deixada sem escolha. Agora entendo: não era falta de amor, era falta de coragem — a minha.” — Pensamentos de Enzo.
O pensamento o atingiu como uma onda fria, apertando seu peito e roubando seu fôlego. Sentiu uma mistura de arrependimento e saudade que o envolveu, deixando-o à deriva em um mar de “e se” sem respostas.
...
Mas então, outro nome veio à mente: Victoria.
E dessa vez não era sonho... esse nome parecia puxá-lo de volta à sua prisão emocional.
Ela tinha jurado ser uma mãe para Theo. E por isso, ele se casara com ela.
Não por amor, mas por culpa.
O acidente tinha decretado o destino dos dois.
O som do impacto, o estilhaçar dos vidros, o corpo de Victoria sendo lançado contra o painel — tudo isso voltava com uma clareza brutal.
― Foi minha culpa. Eu estava dirigindo. Ela perdeu o movimento das pernas por minha causa e deixou de ter a chance de ser mãe também.
Com essa culpa… ela o prendeu por mais de uma década.
...
E agora, como se o destino estivesse brincando com suas certezas, outra mulher chamada Dayse apareceu em sua vida.
Dayse Lancaster tinha o poder de desestabilizá-lo, derrubando suas estruturas que ele acreditava serem inabaláveis.
Ela preenchia o vazio que havia no peito dele, um vazio que estava ali há dez anos.
"Não voltei para ser lembrança. Voltei para ser verdade. E verdades não pedem permissão para doer." ― Diário de D.
Pela primeira vez, Enzo assumiu: ele lutaria por ela. Queria muito conhecê-la melhor.
Pegando o celular, ele decidiu: se isso significasse criar a parceria mais ousada da sua vida, ele faria — só para estar perto dela.
Ele iria atrás dela.
Mesmo sem saber… a mulher que um dia ele descartou — agora era a única capaz de fazer seu coração bater de um jeito que ele nunca tinha sentido antes.
... Enzo Bellucci não reconheceu aquela mulher que invadiu seus negócios e seus pensamentos. Mas há algo nela — no modo como ela o olha, no calor da sua pele — que desperta nele um desejo familiar, quase instintivo. Algo que seu corpo lembra... mesmo que sua mente negue.
Dayse não era só uma lembrança. Ela era o futuro que ele nunca imaginou desejar.

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