Os dias seguintes foram longos e indistintos, mergulhados no protocolo de fertilidade que avançava a passos firmes.
Dayse passava por eles como quem atravessa um nevoeiro espesso: os mesmos corredores, os mesmos exames, os rostos frios que pareciam não mudar nunca. Luna agora fazia parte de tudo aquilo. Ela nunca dizia mais do que o necessário, mas seus olhos estavam sempre atentos: observando, anotando, avaliando.
O protocolo de fertilidade avançava. As injeções aumentaram e, com elas, também apareceram os efeitos colaterais: enjoos, dores de cabeça, noites sem dormir. Tudo isso Luna registrava cuidadosamente, cada detalhe anotado.
“A senhora Bellucci está respondendo bem ao tratamento”, dizia o relatório. Era assim que ela era descrita ali: uma resposta, um corpo funcionando, uma esperança em andamento.
Dayse conseguiu voltar algumas vezes ao jardim, burlando a vigilância de Luna, na tentativa de encontrar Thiago. Aquele pequeno encontro continuava a aquecer seu coração e o jardim continuava sendo o único espaço que pulsava com uma energia diferente da frieza mecânica da casa.
E foi ali, entre as flores, que um dia Thiago reapareceu, trazendo consigo uma leve descontração e um olhar genuíno.
Naquela manhã, o som familiar do motor elétrico chamou a atenção de Dayse, que ergueu os olhos para ver Thiago caminhando despreocupado entre os arbustos floridos da ala norte.
Ele carregava uma caixa de ferramentas no ombro, os fones de ouvido pendurados no pescoço, vestia um boné surrado e uma camiseta manchada de graxa sob o uniforme ― um contraste evidente com o ambiente impecável e controlado da mansão.
A cena transmitia a simplicidade do trabalho manual em meio à opulência ao redor, como se Thiago fosse uma presença genuína e despretensiosa naquele mundo cuidadosamente construído. O jardim, com suas flores e trilhas, parecia ganhar vida não apenas pela natureza, mas pela energia humana que ele trazia ao espaço.
Ao vê-la, Thiago parou por um instante, seus olhos pousando na pequena flor branca presa ao bolso lateral do vestido dela. Com um sorriso suave, ele acenou levemente e disse:
― Bom dia, moça da rosa branca.
Dayse arqueou a sobrancelha, surpresa e confusa.
― O quê?
Thiago apontou para a flor com delicadeza.
― É a única flor que não combina com o resto desse jardim. Parece você.
A rosa branca, colocada ali desde o café da manhã por alguma das copeiras, talvez por engano, passou despercebida por Dayse até aquele momento.
A comparação de Thiago não era apenas sobre a cor ou o contraste; havia uma sutileza na observação que sugeria algo mais profundo ― a singularidade dela em meio à rigidez daquele lugar.
Na linguagem das flores, a rosa branca simboliza pureza, esperança e novos começos.
Assim, o apelido de Thiago carregava uma camada de significado silencioso, como se ele reconhecesse nela uma presença distinta e delicada em meio àquele ambiente frio e controlado.
Esse pequeno gesto, simples e espontâneo, abriu uma brecha na barreira invisível que cercava Dayse, revelando uma conexão humana inesperada. A interação entre eles, ainda que breve, trouxe à tona nuances emocionais profundas, mostrando como pequenos detalhes podem carregar grandes significados e transformar relações.
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