POV/ SAKURA
A expressão séria dele me incomodou mais do que qualquer bronca.
Eu estava acostumada a vê-lo implicando comigo, reclamando das minhas decisões e fazendo comentários irritantes. Quando Nathan ficava daquele jeito, prestando atenção em cada detalhe, era porque realmente estava preocupado.
Toquei sua mão.
— Ei.
Ele ergueu os olhos.
— O quê?
— Eu não vou fazer nenhuma besteira.
Nathan arqueou uma sobrancelha.
— Posso acreditar?
— Pode.
Ele continuou me olhando.
Suspirei.
— Tá. Vou tentar não fazer nenhuma besteira.
Dessa vez, ele soltou uma risada curta.
— Já é alguma coisa.
Sorri.
Nathan apertou minha mão antes de soltá-la e voltar ao computador.
— Vamos terminar de conferir o material que temos autorização para consultar.
Aproximei minha cadeira.
— O que você estava olhando quando voltei?
Ele apontou para uma pasta aberta.
— Documentos antigos relacionados à administração da empresa. Algumas referências estão incompletas.
Examinei a primeira página.
— E essa fotografia?
Nathan pegou a imagem que estava ao lado do teclado.
Mostrava uma reunião corporativa realizada anos antes. Havia vários homens ao redor de uma mesa, alguns com documentos nas mãos.
— Encontrei junto aos registros da época do acidente — explicou.
Peguei a fotografia com cuidado.
Reconheci Heitor e Lorenzo, ambos mais jovens. Havia também outros executivos que eu não conhecia.
— Quem são os outros?
Nathan apontou para uma identificação no verso.
— Alguns nomes estão aqui. Mas nem todos.
Virei a fotografia e examinei as anotações.
A data era anterior ao acidente.
Coloquei-a sobre a mesa e voltei aos documentos.
— Vamos separar tudo que tenha relação com aquele período.
Nathan assentiu.
Trabalhamos durante mais algum tempo, conferindo datas e referências. Ele examinava os registros digitalizados enquanto eu organizava as pastas físicas, tomando cuidado para não misturar documentos de caixas diferentes.
Aos poucos, a tensão diminuiu o suficiente para que conseguíssemos nos concentrar.
Ainda assim, toda vez que ouvia algum ruído no corredor, eu levantava a cabeça.
Nathan percebeu na terceira vez.
— Sakura.
Olhei para ele.
— Oi?
— A porta está fechada.
— Eu sei.
— E ninguém entrou.
— Também sei.
Ele me observou por alguns segundos.
— Vem cá.
Franzi a testa.
— Para quê?
Nathan afastou a cadeira da mesa e estendeu a mão.
Levantei-me e me aproximei.
Assim que fiquei diante dele, segurou minha cintura e me puxou delicadamente para mais perto. Apoiei as mãos em seus ombros, surpresa.
— O que foi? — perguntei.
Ele ergueu o rosto.
— Você está tremendo.
Olhei para minhas mãos.
Estavam mesmo um pouco trêmulas.
— Foi o susto.
Nathan passou as mãos pelos meus braços.
— Eu sei.
Fiquei olhando para ele.
Seus cachos loiros estavam bagunçados, e os olhos verdes demonstravam uma preocupação que ele não tentava esconder.
Meu coração acelerou.
— Você vai ficar me olhando assim? — perguntei.
— Assim como?
— Como se eu fosse quebrar.
Nathan soltou o ar pelo nariz.
— Você não é de vidro, Sakura.
— Ainda bem.
— Mas eu me preocupo com você.
Engoli em seco.
Aquelas palavras eram simples.
Ele já tinha dito coisas parecidas antes, mas ouvi-las enquanto suas mãos permaneciam na minha cintura provocou uma reação completamente diferente.
Baixei os olhos para a gola da camisa dele.
— Eu sei.

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