No dia seguinte, a ação veio.
Às dez e vinte e três da manhã, Helena ligou.
A voz já entrou sem rodeios:
— Ele ajuizou.
Ema ficou imóvel na cadeira.
— O quê exatamente?
— Reconhecimento formal de paternidade, regulamentação de convivência e pedido de tutela de urgência para início de aproximação progressiva com os menores.
Ela fechou os olhos por um segundo.
Embora esperasse por aquilo, a notícia ainda acertou em cheio.
— Chegou rápido.
— Sim. E veio bem estruturado. — respondeu Helena. — Mas também veio agressivo demais em alguns pontos, o que pode nos favorecer.
Ema se obrigou a perguntar o essencial:
— Ele pediu guarda?
— Não diretamente neste momento. Pediu convivência imediata, acompanhamento psicológico conjunto e acesso à rotina escolar e médica. Mas a peça insinua, sim, a construção futura de compartilhamento mais robusto.
Era exatamente o que elas já tinham previsto.
Ainda assim, ouvir aquilo em linguagem concreta fez tudo parecer mais pesado.
Helena continuou:
— Quero você no escritório em uma hora. Givaldo já está vindo também.
...
A reunião foi tensa, longa e detalhada.
A petição inicial de Alípio usava uma linguagem cuidadosamente trabalhada:
arrependimento por desconhecimento tardio,
desejo legítimo de exercer a paternidade,
preocupação com o desenvolvimento emocional das crianças,
necessidade de impedir ocultação indevida da origem paterna.
Ema ouviu Helena lendo alguns trechos em voz alta e sentiu uma vontade física de rir de incredulidade.
Não porque fosse engraçado.
Mas porque a habilidade de distorção era quase obscena.
— “Desconhecimento tardio” é uma piada. — disse Givaldo, frio.
Helena assentiu.
— E é aí que vamos atacar. O exame existia. O histórico dele com a Ema existe. As condutas invasivas recentes existem. A omissão de anos existe. A súbita urgência agora, depois de quatro anos, precisa ser desmoralizada.
Ema perguntou, muito mais baixa do que gostaria:
— E a tutela de urgência?

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