Ema deu-lhe uma leve cotucada:
— Mas antes de tudo, você é minha amiga!
De repente, Zenobia assumiu uma expressão pesarosa e suspirou:
— Ai, ai, pelo visto não terei a sorte de morar no Bosque dos Ipês com você. Pelo jeito, a casa logo terá um homem como dono.
— Zenobia! Você não tem jeito! — Ema a fuzilou com os olhos, mas seu rosto corou levemente.
Zenobia sentou-se rapidamente ao lado dela, entusiasmada:
— Deixa eu te contar, aquela sua sogra, a Glória, desde que acordou, grudou aqui para cuidar de você. Menina, ela fez uma cara de tanta aflição, parecia até mais preocupada que sua própria mãe. Embora ficasse resmungando... — Zenobia levantou o dedo, imitando o tom de voz de Glória: — Esse moleque não tem bom gosto, foi arrumar uma sonsa. Ainda bem que as crianças puxaram a mim e são espertas.
Zenobia deu tapinhas no braço de Ema, animada:
— E tem mais! O Alípio estava sentado bem aqui onde estou agora, feito uma estátua, não saía por nada nesse mundo...
— Tá bom, tá bom. — Ema acenou com a mão. — Acho que eles te compraram. A nossa amizade não será mais a mesma.
— Ah, contanto que você seja feliz, que seja.
Ema sorriu amargamente e deu outro tapinha de leve nela. Após uma breve brincadeira, Zenobia disse com um ar travesso:
— Falando nisso, tive uma conversa séria com o César. Aquele idiota me explicou que sentiu pena daquela Klébia Barreiros num momento de fraqueza, mas que não tem nada com ela. Só que não tenho mais paciência para lidar com isso. E o Wendell Belmonte... nesses anos no exterior, ele foi controlado pela madrasta, que vivia o trancafiando. Isso o deixou com uma depressão severa. Ele só voltou para o Brasil me procurar quando se recuperou totalmente. Ai... eu fico com dor de cabeça só de pensar nesses rolos amorosos.
— Zenobia. — Ema aconselhou com ternura: — Siga o que o seu coração mandar.
— É, eu também acho. Bom, minha hora já deu. Olha só a sombra naquela porta de vidro fosco, tem alguém andando de um lado para o outro ali. Aposto que já está me rogando pragas. Estou indo! A gente se fala pelo celular!
Dito isso, Zenobia levantou-se e correu em direção à porta. Ema ainda tentou chamá-la, mas a amiga desapareceu pelo corredor sem olhar para trás.
O quarto mergulhou em silêncio. Alípio entrou com a expressão serena e sentou-se diretamente na cadeira ao lado da cama. Despejou um pouco de sopa de uma garrafa térmica numa tigela pequena e mexeu devagar. Ao atingir a temperatura ideal, pegou uma colher cheia e ofereceu a Ema:
— Venha, tome um pouco. Minha mãe que fez para você.
Ema hesitou e, lentamente, pegou a tigela:
— Eu... eu tomo sozinha.
— Tudo bem. — Alípio respondeu gentilmente, soltando um sorriso leve e começando a explicar com calma:
— Você deu sua blusa para minha mãe e acabou pegando uma friagem terrível. Quando tiver alta amanhã, vai precisar descansar bastante em casa para se recuperar.
— Helena, Fátima e Natália já foram entregues à polícia. Quanto ao Benício, você já sabe sobre as ações dele e a relação que tem com o Henrique Sousa, não é? Por sorte, você saiu ilesa. Henrique assumirá a responsabilidade de resolver as questões do contrato dele com o seu ateliê.
— Sobre o buraco em que você caiu, para que não fique assustada, eu tirei uma foto do local. Foi uma vala escavada artificialmente, um tanto funda, mas as paredes tinham certa inclinação, não era um abismo reto.
— Além disso, você acabou de ver a minha mãe, ela está perfeitamente bem. Não se preocupe.
Ema tomava a sopa em pequenos goles, ouvindo-o em silêncio, mas evitando o contato visual. O olhar ardente dele a deixava amedrontada...
Quando ela terminou de comer, Alípio umedeceu uma toalha em água morna e limpou-lhe a boca e as mãos:


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