Nos dias seguintes, o escritório de Helena virou uma extensão da vida de Ema.
Havia reuniões presenciais, ligações inesperadas, revisões de documentos, ajustes na linha do tempo e pedidos de comprovação para detalhes que, até então, ela jamais imaginara precisar provar.
Quem levou as crianças ao pediatra em cada ano.
Quem assinou autorizações escolares.
Quem pagou atividades extracurriculares.
Quem esteve presente em consultas, febres, crises, aniversários, apresentações e acidentes domésticos.
Tudo precisava ser transformado em elemento objetivo.
Tudo precisava caber em papel.
Numa dessas reuniões, Helena abriu uma pasta grossa e disse:
— A nossa resposta está ficando muito sólida. Mas ainda quero uma declaração formal da escola sobre a sua participação ativa e constante na rotina dos três.
Ema assentiu.
— Eu consigo isso ainda hoje.
Givaldo, sentado ao lado dela, acrescentou:
— E também podemos anexar os registros das campanhas e agendas do estúdio para mostrar que a rotina profissional dela sempre foi construída em função da rotina das crianças, e não o contrário.
Helena aprovou com a cabeça:
— Exatamente. Isso ajuda a desmontar qualquer narrativa de que você seria uma mãe ausente ou desorganizada.
Ema ouviu aquilo e soltou um suspiro baixo.
— É muito estranho ouvir a minha vida inteira sendo traduzida nesses termos.
Helena a olhou com serenidade:
— Eu sei. Mas, neste momento, transformar a sua vivência em linguagem jurídica é justamente o que vai protegê-la.
Ela tinha razão.
Mesmo assim, havia algo de brutal em ver amor, rotina, cansaço, cuidado e vínculo sendo convertidos em anexos.
...
Na volta para o estúdio, Givaldo dirigia em silêncio.
Depois de alguns minutos, comentou:
— Você está reagindo melhor do que eu esperava.
Ema virou o rosto na direção dele.
— Isso foi um elogio ou uma crítica?

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