— Então é assim? Você não se importa nem um pouco com o fato de eu ser seu irmão?
Pedro perguntou, furioso.
Carolina riu.
— E você? Em algum momento lembrou que eu era sua irmã? Eu esqueci os últimos anos, mas ainda guardo algumas lembranças da infância. Quando você fazia besteira, quem apanhava era eu. Quando aprontava, jogava tudo nas minhas costas. Se havia três balas, você comia duas. Se havia duas, ficava com as duas também. Você sempre foi egoísta, Pedro. Minhas lembranças podem estar uma bagunça, mas disso eu não tenho dúvida.
— Tá. Chega de falar do passado. Eu vou arrumar o dinheiro.
Pedro respondeu entre os dentes.
Carolina desligou e sentiu uma satisfação limpa se espalhar pelo peito.
Ergueu o rosto, deixando o sol tocar sua pele clara.
Nos últimos dias, algumas lembranças da infância tinham voltado aos poucos, ainda sem muita nitidez. Quase todas, porém, giravam em torno da mesma coisa: o favoritismo dos pais.
Do jeito que estava agora, Carolina já conseguia olhar para aquilo com certa distância.
A mãe passara a vida inteira favorecendo o filho. Mesmo assim, depois de adoecer, deixara uma parte da casa para ela.
Aquilo também não era uma forma de amor?
No fim, as pessoas eram contraditórias daquele jeito.
Dias antes, ela havia lido algo parecido em um livro de Maugham: o coração humano nunca era feito de uma coisa só. Nele cabiam bondade e crueldade, amor e rancor, grandeza e mesquinharia. Uma coisa não apagava a outra.
Lá fora, ouviu o carro saindo do pátio.
Pouco depois, o celular vibrou duas vezes. Carolina pegou o aparelho e viu uma mensagem de Henrique no WhatsApp.
[Carol, vou levar minha mãe para casa. Volto mais tarde.]
Ela respondeu com um emoji de confirmação.
Em seguida, abriu a conversa com Vanessa e escreveu:
[Mãe, volte sempre.]
Vanessa respondeu quase na mesma hora:
[Volto, sim. E, quando tiver tempo, venha também com o Rick aqui para casa. Não ligue para o seu sogro. Ele sempre teve essa cabeça dura. Um irritante.]
Vanessa era uma boa mãe. E, por amar o filho, acabava tratando Carolina com um carinho generoso, uma gentileza cuidadosa, quase como se quisesse protegê-la de tudo.
Sem saber muito bem o que responder, Carolina enviou uma figurinha de uma menininha sorrindo comportada.
Depois deixou o celular de lado, sentou-se na cadeira de vime, à sombra, e fechou os olhos por alguns minutos. A brisa fresca do fim de outono roçou seu rosto, misturada ao cheiro suave da grama e das flores.
Um dia assim pedia um livro.
Ela se levantou, voltou para o quarto e logo mergulhou nos estudos.


Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amar Foi Perder o Controle
Pq está dando erro na leitura do livro...
É sério . Está dando, pedindo pra acessar mais tarde, porém está cobrando dinheiro vulgo moedas, é errado isso...
Pq está cobrando moedas verso dinheiro e não estou conseguindo acessar o livro, pq dar um jeito de dar o acesso às moedas cobradas...
É possível obter o e-book completo?...