Henrique Guedes estava no último ano do ensino médio, cheio de provas, e não se encontrava em casa.
Vera Guedes levantou-se várias vezes. Cada movimento dela, cada fio de cabelo, parecia gritar de impaciência para mandá-la embora logo.
O quarto em que Júlia dormia antes era, na verdade, um quartinho de bagunças para guardar malas.
Não tinha janelas e mal cabia uma cama de verdade.
Desde o dia em que se mudou para lá até terminar o colégio, Júlia viveu espremida em um colchão fino, onde lia e dormia.
Mas agora, nem aquele cubículo lhe pertencia mais.
Júlia sentiu como se uma mão de gelo lhe perfurasse o coração. Até a sua respiração pareceu congelar.
Aquele lugar não era o seu lar havia muito tempo.
Para os próprios pais, ela era apenas uma estranha que cruzava seus caminhos ou, pior, uma credora incômoda.
Júlia engoliu em seco, sufocando a torrente de emoções, e perguntou com a maior calma que pôde forjar:
— O Henrique completou dezoito anos e vocês já correram para vender a minha casa?
Vera lançou-lhe um olhar de repreensão:
— Olha só pra você! Acabou de pisar em casa, nem bebeu um gole d'água e já vem falando bobagens. Que história é essa de sua, minha? Família não tem essas separações!
Júlia permaneceu em silêncio, mas seu olhar pesava toneladas.
Alberto Guedes colocou a xícara de chá na mesa:
— Você já é casada...
Júlia sabia exatamente aonde ele queria chegar e o interrompeu sem hesitar:
— Casada ou não, a casa era minha. Um bem adquirido antes do casamento e registrado no meu nome. Falsificar minha assinatura e vender meu patrimônio sem minha autorização é crime.
O rosto do homem se fechou em fúria:
— É assim que você fala com os seus pais? Faltou educação nessa sua criação!
Júlia ergueu levemente o canto da boca, soltando com frieza:
— Faz sentido, já que eu nunca tive um lar de verdade.
— Você!
Alberto apontou o dedo bem na cara dela, a mão tremendo de raiva:
— Sua filha ingrata!
A venda da casa já havia sido consumada, e não era um problema que se resolveria de uma hora para a outra.
A prioridade de Júlia, naquele momento, era resgatar sua certidão de casamento.
Vera, sempre perspicaz, disparou:
— Pra que tanta pressa em pegar a sua certidão?
Júlia:
Ela tinha ido até lá disposta a conversar, e por mais que sua postura fosse firme, no fundo, não queria transformar tudo num escândalo judicial.
Vera segurou a mão de Júlia e deu-lhe uns tapinhas afetuosos e raros:
— Do resto da sua vida eu nem reclamo, mas você não pode se divorciar de jeito nenhum! Eu não te falei no ano passado que o Henrique vai cursar Finanças e depois quer trabalhar no Oceano? Como é que você me arruma um divórcio uma hora dessas?
A raiva de Alberto ainda não havia passado:
— Isso é porque ela com certeza andou aprontando e a família Santana a enxotou! Uma mulher feita, mandamos ela fazer um curso técnico qualquer e procurar um emprego de verdade, mas não, quis virar atriz. A gente pensou que o casamento ia colocar juízo nessa cabeça, e olha só! Viu um homem rico e se jogou pra cima dele, a ponto de sair no jornal como amante!
Anos depois, Júlia sentia na pele novamente o gosto amargo da traição vinda de sua própria família.
Ela não conseguiu soltar uma única palavra.
Quando os internautas a xingavam, ela conseguia rir e deixar para lá.
Mas ali estava o seu próprio pai, chamando-a de amante com puro nojo estampado no rosto.
Júlia simplesmente não sabia o que mais poderia dizer.
Enquanto tentava acalmar Alberto, Vera se virou para a filha e disse:
— Bom, o Henrique já deve estar chegando da escola, é melhor você ir. Depois que a gente não precisar mais dos documentos, eu te devolvo.
Entre um puxão e um empurrão gentil, Júlia foi colocada para fora da porta.
Aquela visita terminara da pior forma possível.
À noite, assim que Júlia voltou para o hotel, seu celular tocou.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Ame-me Outra Vez, Minha Ex!