Júlia estava imóvel no sofá, segurando o celular com firmeza.
Ela ainda se lembrava da forma como Sérgio Santana tratou Clarice Cardoso na última vez que se viram, como se ela fosse um tesouro precioso.
Implorar a ele? Seria apenas cavar a própria humilhação.
Patrícia Prado apertou as mãos de Júlia:
— Não jogue fora um trabalho que você lutou tanto para conseguir. Tenta, pelo menos.
Júlia hesitou, mas acabou discando para o número particular de Sérgio.
Seu coração batia desesperado a cada tu... tu... do toque de chamada.
Júlia sentia um desespero urgente, misturado com uma faísca patética de esperança, algo que ela mesma relutava em aceitar.
Esperar que Sérgio a olhasse de volta parecia ter se tornado um instinto em suas veias.
No momento em que a ligação foi atendida, Júlia soltou a respiração presa e sua voz saiu quase luminosa:
— Sérgio, eu...
— É você, Júlia?
A voz feminina que veio do outro lado era suave e delicada.
O rosto de Júlia perdeu toda a cor. Seus olhos foram instantaneamente para o relógio na parede: passava da uma da manhã.
O motivo pelo qual Clarice e Sérgio estariam juntos àquela hora era mais do que óbvio.
Aquele fiapo miserável de esperança que lhe restava foi esmagado.
Clarice deu uma risadinha leve:
— Você ligou pro Sérgio por causa daqueles trending topics, né?
Como Júlia permaneceu muda, a voz arrastada continuou:
— O Sérgio já tinha deixado tudo bem claro na última vez. O seu escândalo pega muito mal para a imagem da empresa. E ligar a essa hora, atrapalhando o descanso dele, não acha que é meio inconveniente?
Antes de ligar, Júlia imaginara mil cenários: que ele estaria ocupado, que seria irredutível. A única coisa que não previu foi que ele estaria dividindo a intimidade com outra mulher de madrugada.
A verdade é que ela tinha sido uma tola.
A família de Clarice e a de Sérgio eram velhas amigas, eles cresceram juntos. Clarice era o primeiro amor intocável que todos reconheciam.
O coração de Júlia sangrava:
— Eu estou ligando para o meu marido. Quem está sendo inconveniente aqui, Senhorita Cardoso, é você.
Clarice ignorou a alfinetada e soltou um ah manhoso:
— Entendi. Eu até passaria o celular pra ele, mas como a gente faz? Ele está no banho agora. Quer que eu avise para ele te ligar quando terminar?
Júlia não queria desperdiçar a chance de pedir ajuda, mas também se recusava a implorar para a própria rival.
O dedo indicador de Clarice batia ritmadamente contra a capinha do celular, enquanto ela soltava um riso aveludado:


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